Uma canção desconhecida
Estava começando a chover, os primeiros pingos começaram
a cair. Tudo parecia ser igual, como numa fotografia em preto e branco.
O céu começava a mudar de cor, nuvens cinzas cobriam
o azul. Uma união de duas cores que se alternavam formando imagens
e vários outros mundos diferentes.
O homem deseja, e cada vez mais, tornar-se eterno. O elixir da longa
vida, tão procurado por todos, parece estar prestes a ser descoberto. É imensa
a força que o ser humano absorve dentro do seu mundo psicológico
para atrair a eternidade esperada, desde tempos remotos. Sempre o homem
esteve em busca daquilo que o tornaria imortal. A sua ânsia cresce,
durante os tempos, por momentos que prolonguem a sua tão limitada
vida.
Como encarar a eternidade? Abre-se a possibilidade de uma outra vida,
além da terrena. Talvez, por isso, o ser humano jogue todas
as suas frustrações e fracassos, em não conseguir
o prolongamento de sua vida, na busca de mundos imaginários,
que viriam após esse em que vivemos. Abre-se a possibilidade
do corpo humano perecer, enquanto uma outra parte, o seu espírito,
permaneceria imortal, abandonando aquele corpo em que se encontrava
e partindo para novas aventuras. Uma delas seria o descanso, depois
de toda uma saga. Além, é claro, de não esquecermos
o bem e o mal - o inferno e o céu - que dividem aqueles que
por aqui passarem. Outros acreditam numa volta à terra, através
de reencarnações posteriores à sua morte. Mais
outras teorias são expostas e impostas, nem sempre analisadas,
mas aceitas.
O certo é que a vida e a morte não constituem difíceis
mistérios a ser desvendados. Defini-las não é dever
de nenhum de nós, mas sim passar por cada um deles para poder
compreender os seus significados. É preciso, no entanto, ter
um certo senso de percepção e não deixar escapar
aos nossos sentidos as pistas que nos são dadas. É necessário
ir mais além do que o visto por nossos olhos, penetrar no universo
desconhecido e descobrir o verdadeiro sentido das coisas que nos cercam,
por mais estranhas e irreais que pareçam ser. O mistério
sempre permanecerá escondido e, ao mesmo tempo, estará esperando
que o desvendem. Ele nunca se mostrará ao todo. Aquele que consegue
penetrar no desconhecido desvenda a existência das coisas e a
sua própria existência.
O conhecer individual de nada adiantará, se não for utilizado
para que outros possam chegar a outros mundos através dele.
O conjunto do conhecer individual contribuirá para que se conheça
o ilimitado. Através de várias teorias é que se
pode chegar a fatos concretos. Nada é totalmente certo, visto
de um único ângulo, mas pode dar início a um novo
caminho que venha a dar no ponto procurado. Não é de
complicadas teorias que se pode provar o que ainda não conhecemos,
mas através de conclusões simples, que nos levam a uma
resposta comum. Tudo será explicado com o passar do tempo. O
ser humano sempre caminhará em direção à sabedoria
cósmica, que se encontra no espaço aparentemente inatingível.
As descobertas acontecerão, pois o homem busca, no interior
de sua mente, a inteligência que se esconde e esse potencial
aumenta, a cada dia, e faz com que progrida na sua busca do desconhecido.
Tudo parecia ser igual, nuvens cinzas cobriam o azul do céu.
Os pingos da chuva entravam pela janela. O vento espalhava os papéis
que estavam em cima da mesa. Deitado no sofá, ele sonhava indiferente
a tudo o que acontecia.
Carros de todos os lados começavam a chegar. Juntavam-se e iniciavam
as suas trajetórias. Corriam em alta velocidade fazendo um barulho
capaz de quebrar todas as vidraças existentes, de arrebentar
os tímpanos. Não paravam e, de seus canos, saíam
fumaças pretas escurecendo as ruas, subindo para o céu.
Muita fumaça, muito barulho, muitos carros. De onde vinham?
De todos os lados, de todas as direções, soltando muita
fumaça, correndo em alta velocidade, destruindo tudo o que encontravam
pela frente. Não respeitavam nada. Quebravam tudo. Vinham para
escurecer a cidade e soltavam suas fumaças desesperadamente,
com muita força, como se necessitassem poluir todo o ambiente.
E o céu tornava-se, cada vez mais, escuro. As pessoas corriam
e ele não sabia o que fazer. Ficava parado num canto, encostado à parede
de uma loja, sem poder se mover. Tentava correr, mas não conseguia
sair do lugar em que se encontrava. Assistia apavorado a tudo aquilo,
mas não pode fazer nada.
Tudo começava a perder a cor, a ficar preto. O céu ficava
mais escuro ainda. Seus dedos começavam a escurecer, depois
as mão, os braços, os pés, as pernas, a barriga,
todo o seu corpo e ele começava a sentir uma sensação
de angústia, de peso. Parecia que o seu corpo estava sendo invadido
por algo. Sentia-se preso e percebia que seus braços e suas
pernas estavam acorrentadas. Movimentava o corpo, tentava se livrar,
mas não conseguia. Olhava para baixo e via a cor preta subindo
para o pescoço, sentia uma abertura em sua cabeça. Um
enorme tubo está entrando em sua cabeça e derramando
petróleo em seu corpo. Pensava em gritar, mas a voz não
saía.
Os carros paravam de soltar fumaça, de correr de poluir o céu
e já não se enxergava mais o azul, o sol. Tudo nublado,
como se fosse chover, tudo escuro. A fumaça entrando e saindo
pelo nariz e pela boca, entupindo os pulmões, escurecendo o
céu. Ele olhava para o alto, olhava ao seu redor: a mesma coisa,
tudo preto. Tentava correr e não conseguia, gritava e sua voz
não saía.
De repente, as corrente quebraram e ele saiu correndo, como um pássaro
que voa pela porta aberta de sua gaiola, depois de meses ansiando pela
liberdade. Corria sem olhar para trás. Percebia que algo lhe
perseguia, ouvia o barulho infernal dos carros, cada vez mais próximos.
Seu medo aumentava e ele corria com mais pressa, como um louco. Não
respeitava mais nada, corria somente. Ao dobrar uma esquina, viu, do
outro lado da rua, uma escada. Atravessou depressa, sem parar de correr,
em direção à escada. Os degraus pareciam intermináveis
e a escada parecia aumentar, a cada degrau que pisava. Pensava em voltar,
descer a escada. Encostou numa parede e viu os carros que passavam
lá embaixo. O céu continuava escuro, começavam
a cair as primeiras gotas. A chuva forte molhava todo o seu corpo.
Ele continuava a subir a escada, molhado e cansado. Olhou novamente
para baixo e viu a água subindo e inundando a rua, subindo os
degraus. Desistiu e sentou-se. Com a cabeça apoiada nos joelhos,
esperou que tudo passasse.
O sol nascendo, o azul do céu começava a aparecer. Ele
acordou e ficou olhando para o teto branco de seu apartamento. Ouviu
pássaros cantando alegres em árvores próximas
dali. Uma canção desconhecida.
As torres
Rose estava na janela observando os carros que passavam lá embaixo.
Ia se dirigir a ele que estava datilografando o seu livro, num canto
da sala, quando ouviu a voz de alguém gritando por nomes estranhos.
Olhou para a rua e viu uma mulher mal vestida gritando palavras incompreensíveis.
Ela dirige-se a ele:
- Veja que loucura! Quem será que ela está chamando?
- Todos os dias ela pára por aqui, sozinha, e chama por pessoas
que devem ter morado em algum lugar aqui por perto. Todos os dias é a
mesma coisa. Chega, chama por essa pessoas e sai feito louca. Não
pára, não conversa com ninguém e sai andando pelas
ruas, à toa. O local onde estão construídos esses
prédios, era antes uma área onde existiam chácaras.
Os centros urbanos foram crescendo e o povo ocupou o que restava. Morros
cheios de favelas. Provavelmente, as pessoas que ela procura, se é que
procura por alguém verdadeiramente, moraram aqui. Deviam ser
donos de alguma chácara. Ninguém conhece a sua história.
Ninguém sabe o que aconteceu no passado. O local foi tomado
por prédios, condomínios, favelas, esgotos... E ela,
uma louca, caminha pelas ruas da cidade atrás de alguém.
Chama sempre por nomes estranhos, mas que lhe parecem familiares. Andando
pela rua, ela conhece tudo e todos. E vive desligada de tudo isso que
a cerca. Vive um mundo exclusivamente seu. Bem acima de nós,
as torres de TV, que nos trazem notícias do mundo inteiro.
Ele percebe que Rose não está sintonizada, tanto quanto
parece, em relação ao que ele está falando. Ele
mantém-se numa postura natural. Tudo permanece normal, desde
o momento em que Rose chegou. O estranho é que aquela história
toda modificou tudo o que ele havia planejado. Rose comentou que alguns
peixes a atacaram, quando entrou numa lagoa para mergulhar, durante
a semana anterior.
- Se um peixe nos ataca, não devemos nos assustar. Afinal, não
somos nós mesmos quem jogamos as iscas?
Rose começa a rir, mas depois olha estranho para ele.
- Por que você começou a me olhar assim, tão estranho?
Rose fica mais séria ainda e vira-se para a janela. Depois de
algum tempo em silêncio, volta-se para ele:
- Você deve estar sentindo algo. Não seria tormento, angústia,
dúvidas ou, até mesmo, alegria? Nada acontece sem que
aconteça algo que impulsione os primeiros movimentos. As plantas
crescem porque lançaram as suas sementes na terra: o homem,
os pássaros... a vida.
- A vida? O que tem a ver tudo isso que você começou a
falar de uma hora para outra?
Rose agora torna-se mais séria, já que nota que ele se
interessara pelo que estava dizendo, e continua:
- Sei que não tem nenhum sentido para você essas minhas
reflexões, nem para qualquer outra pessoa, pois são exclusivamente
minhas. O que me interessa, no entanto, é a curiosidade dos
que me ouvem e observar a maneira como eles reagem ao que estou dizendo
e que, às vezes, nem eu mesmo entendo.
Antes que ele pudesse falar algo, Rose foi ao quarto, pegou sua mochila,
abriu a porta da sala e desceu correndo as escadas do prédio.
Ele saiu em sua direção, mas quando chegou na porta só ouviu
os seus passos apressados, pela escada abaixo.
Não conseguira alcançar Rose. Estava cansado, descera
as escadas correndo e não conseguira alcançar Rose. Ela
entrou num táxi e foi embora. Ele subiu as escadas como se não
estivesse em casa, devagar, lento. Sempre subira aquelas escadas e
sempre sentira vontade de subi-las correndo. Subia as escadas que o
levava ao espaço onde ficava nos momentos em que queria ficar
só ou escrever. Quando abriu as portas, encontrou os rascunhos,
os papéis espalhados pelos quatro cantos da sala. Tudo voltava
a mais uma rotina normal. Uma rotina ansiando transformações.
Não conseguiu enxergar mais nada à sua frente. Sentou-se
num dos degraus e fechou completamente os olhos. Só pensava
em se desligar de tudo que o esperava além da porta do apartamento
onde morava.
"
Imagino cada instante como se diferente fosse. Talvez, por isso não
me importe com novos ou velhos acontecimentos, porque sempre diferentes
foram. Todo instante é um, único e só. A sensação
que sinto é como se eu fosse outro. O dia é outro, o
instante é outro e eu já não sou o mesmo de ontem.
Nós mudamos assim como o dia muda. A única coisa que
nos faz continuar ligados ao passado é o ato mecânico,
adquirido no decorrer de nossa existência, de fazer ou continuar
fazendo para que alcance o final.
Chegar sempre ao final. Por isso continuo aqui: para chegar ao final.
Tudo pronto para ser feito. Só que, hoje, as coisas estão
diferentes. O mundo está diferente. Tudo não passa de
uma rotina normal, mas eu estou percebendo a diferença em mim.
O livro foi a única forma de me manter vivo, que me fez chegar
até aqui. Um ato mecânico, para chegar a um final. As
transformações podem acontecer a qualquer instante."
Uma luz no final do túnel
Um indeterminado desejo de encontros que o levasse a novos caminhos.
Assim, Juno conseguia percorrer novos espaços e descobria, a
cada novo encontro, a diferença que existia entre o mundo em
que se encontrava, num determinado momento, e o que existia fora dele.
O querer sempre mais, não por insegurança, mas por falta
de segurança. Era o querer desprotegido, o motivo além
da flor da pele. E ainda existiam muitos mundos que não conhecia,
mas o conhecer não havia se esgotado. Precisava expandir-se
e mudar a situação, o jogo. Às vezes, parava e
observava melhor. Sentia cada barulho, por mínimo que fosse.
Cada barulho. Passeava entre grutas, visitava lugares estranhos, diferentes.
Sempre uma nova descoberta. Tuna o havia ensinado como se expandir,
agora precisava ir sozinho. Juno observava atento a tudo o que via.
Percorria mundos dentro de outros mundos. O inatingível sendo
alcançado, o conhecer se manifestando, aparecendo. Outras vezes,
passava rápido, conhecendo superficialmente, mas se informando.
Era só rascunho arquivado para nunca mais ser usado. Ou, quem
sabe, um dia precisasse. Um indeterminado desejo. Juno havia avançado
bem mais do que podia. Tuna seria alguém indicado para lhe guiar.
Via Cristal com maior transparência. Já estava a um grau
máximo. Conseguira avançar. Depois da prisão,
voltara melhor, com uma sabedoria maior. Tivera muito tempo para pensar
e analisou tudo por que tinha passado.
Juno conseguira falar com Tuna, tinha dado um grande avanço.
Tuna estava, e cada vez mais, indo de encontro ao subterrâneo.
Sabia que existia uma luz no final do túnel. Via-se, no entanto,
apenas um pequeno ponto luminoso que surgia. Uma luz que brilhava forte,
apesar de pequena. Às vezes, mudava de cor. De uma cor vermelha,
passava a ser laranja, depois amarela e, posteriormente, branca. Algum
tempo depois, mudava de cor novamente, no sentido inverso: da cor branca à vermelha.
Tuna seguia tentando alcançar o final do túnel.
Para Juno, uma segunda pessoa a entrar no túnel, era bem mais
perigoso. Era preciso estar preparado. Todo descuido seria fatal. Tuna
sabia que o momento seria indicado. Não era mais adiar o que
estava por acontecer. Não tinha mais o controle da situação.
Não poderia adiar, estava tudo planejado, tudo pronto para ser
feito.
Um céu cinzento, com manchas vermelhas. Uma imagem única.
Tuna observa o céu: "um céu totalmente cinza, não
fossem essas manchas vermelhas..." Observa Juno que caminha em
sua direção. Dirige-se ao abismo e mostra o sol que descia
num céu vermelho e cinza:
- Estas imagens parecem que já foram vistas anteriormente. Não
seriam sempre as mesmas? Não acontece o repetir, mas parece
existir uma única imagem. A transformação acontece
a todo instante e deixa o espaço aberto. O espaço é livre
para que as cores se misturem. Nunca mais veremos estas imagens, mas
outras novas que surgirão.
Juno fez um sinal com a mão, queria falar algo. Tuna continua
a falar:
- É algo que está acontecendo naturalmente. Aqui estão
os arquivos de outros que passaram por fases e estágios parecidos
com esses que você teve que enfrentar. Foram auxiliados por outros
que trabalham comigo. São vários, em lugares diferentes,
tentando ajudar ao que lutam, querem sair das Centrais a qualquer custo.
Nós iremos avaliar a saída de cada um de vocês,
onde falharam e o que têm a fazer.
Tuna entrega uma pasta a Juno. Os arquivos, uma luz no final do túnel.
Tudo estava certo, não iria acontecer nada anormal. A hora havia
chegado, não mais podia mudar a situação. Ele
fora levado por si mesmo até ali. Tudo estava programado nos
mínimos detalhes. Estava ali, cumprindo o que estava programado.
Ele já estava ali: não podia mais voltar atrás,
não podia mais olhar para trás. Juno mantém-se
cheio de dúvidas. Pega o arquivo com as mãos e pergunta
a Tuna:
- E depois? Iremos continuar aqui?
- Não, respondeu Tuna. Somente nos reuniremos aqui, até que
tudo seja consumado.
Prisão
Ele entrara naquele ônibus com a intenção de chegar
mais rápido ao seu apartamento, já que percorria um trajeto
bem maior, mas o trânsito, em compensação, era
mais livre. Sentou-se perto do cobrador que conversava com um passageiro
sentado do outro lado. Isso fazia com que a conversa fosse ouvida abertamente
por uma parte dos passageiros que se encontravam no ônibus. "Não
sei até que ponto as pessoas se deixam levar. Sempre sentadas,
sem olhar para os lados, num ônibus qualquer, sendo transportadas
para algum lugar. E vão e vêm, sempre. Estão em
todos os lugares, mas não sabem por que estão. Todas
elas têm uma máscara, com uma expressão triste,
ora indiferente. Movem-se sem, na verdade, sair do lugar."
O cobrador conversava entusiasmado e agora dizia em voz ainda mais
alta, como se quisesse que todos o ouvissem:
- Se meu pai fosse um cafajeste, eu teria coragem de mandar ele prá cadeia. É isso
mesmo: prá cadeia. Não, isso não. Em minha coroa
ninguém põe a mão. Se ele tocasse a mão
em minha coroa, eu mandava ele prá cadeia.
Vendo que ninguém se manifestava em relação ao
que tinha acabado de dizer, começou a contar o dinheiro que
tinha em mão, enquanto olhava para ele que estava tão
próximo e parecia estar distante. Não entrava em sua
cabeça a idéia de que alguém pudesse permanecer
indiferente à rotina que o cercava de todos os lados. Ele ia
distraído em seus pensamentos: "por que se satisfazer com
tão pouco se o muito existe? Por que não procurar se
expandir? É por se contentar com pouco que o ser humano se esquece
de conhecer novos espaços. É preciso acabar com a estagnação, é preciso
se movimentar. A acomodação produz ignorância que,
por sua vez, vai dar numa inconsciência generalizada. O necessário é desrotular
tudo. Não existe contra-indicação, nem a indicação
certa existe. Acabar de vez com os rótulos..."
Ele olhou para o lado e viu entre os vidros da janela do ônibus
um gafanhoto preso, sem poder se mover. Viajando imóvel, quieto
e despercebido. Não sabia como fora parar ali. Ia naquela viagem
que não sabia quando iria terminar. Para onde o estariam levando?
Perguntava a si mesmo e não obtinha resposta. Permanecia imóvel
em seu lugar, entre os vidros das janelas do ônibus. Não
podia se mexer. As luzes da cidade começavam a iluminar a noite,
com seu letreiros coloridos. "Todos os instantes são preenchidos
por luzes que geram brilhos. E cores passeiam pelo universo afora, à procura
de novas imagens. Novos encontros dentro de enormes momentos. Os segredos
dificilmente serão revelados e a mina sempre permanecerá escondida.
Animal jogado ao tempo. E não é, também, uma maneira
de vida? Não entendo por que existe tanta coisa inacabada. Ou
compreendo porque existem e fazem parte do meio. Compreendo tudo, menos
a estagnação. Não existe contra-indicação,
nem a indicação certa existe. Não é preciso
descobrir fórmulas, rotular modos... Somente existe a verdadeira
história que nunca foi escrita, mas escondida durante todo o
tempo."
Tambores
Juno chega à Marádida. Na verdade, todo o espaço
que ali se encontrava já estava ocupado pelas Centrais. Não
era mais o espaço de antes, não era mais um lugar totalmente
seguro, distante da vida que se levava nas Centrais. "As horas
não existem, o tempo não pode ser medido. O espaço
pode desmaterializar-se com tudo o que faz parte dele. O espaço é imenso
e as estrelas são muitas, não podemos vê-las totalmente.
Não sei quando todos irão percorrer toda aquela claridade
negada, quase nunca vista, nunca enxergada. Não sei se saberão
quando. Talvez, nem importe quando." Tambores batem durante toda
a noite e luzes fortes são lançadas em direção
a Marádida. Tudo pode ser visto, ouvido, mas Marádida
permanece imóvel em seu silêncio. É vista como
um todo, numa visão integral de sua grandeza. "Não
podemos dizer onde todos estão. Nunca se sabe onde estão,
nem quantos são. Não sei quando todos irão perceber
toda aquela claridade negada. O silêncio se faz presente em todos
os momentos. Por que não explodi-los? As cores são negadas,
mas existem. Ninguém, na verdade, permanece preso. A privacidade
das cabeças permanecerão sempre inexploradas, inexplicadas.
Ouve-se, somente, tambores que batem durante toda a noite. Não
se sabe de onde vem o som, mas permanece a noite inteira, com se nunca
fosse parar."
Juno lembra-se dos sons e percebe que eles já não são
ouvidos ali onde se encontrava. Havia ultrapassado todo o limite pertencente
a Marádida. Podia agora percorrer novos espaços, ir mais
além do que podia antes. Em sua cabeça permaneciam interrogações: "Por
quem eram tocados os tambores? Por que todas as noites ouviam-se tambores?
De onde vinham os sons?" Tuna compreendia todas as dúvidas.
Juno havia ultrapassado o espaço de Marádida, mas ainda
não sabia de tudo. Em Marádida nunca se sabia verdadeiramente
de tudo o que acontecia por lá. Ao contrário do que pensara
antes, ninguém sabia da existência real do todo. Juno
teria que saber da veracidade escondida. Tuna aproxima-se de Juno e
diz:
- Todo o barulho ouvido, durante a noite, é algo provocado pela
estagnação de mentes paralisadas. Os habitantes de Marádida
não conseguem enxergar a realidade, nem ouvi-la, mas enxergam
tudo o que lhes é mandado enxergar. Criam imagens e sons e eles
não sabem o porquê. Eu estava vendo, sem ser notado, durante
todo o tempo em que você vinha até onde nos encontramos
hoje. Não existem tambores, não existiam os sons que
você ouvia lá.
Juno fica calado por um momento. Não entende o que Tuna acaba
de lhe dizer e pergunta:
- Não existem tambores? De onde vêm os sons?
- O silêncio provocava o barulho dos tambores. O silêncio
provocava a estagnação e, consequentemente, ninguém
conseguia explicar como tudo acontecia. Nem mesmo você. Juno,
você está começando a perceber a existência
do espaço negado. Em Marádida, todas as coisas eram negadas
para que somente fossem aceitas o que as Centrais quisessem. A verdade
permanecia escondida.
Tuna levanta-se e chama Juno com um gesto das mãos, como se
quisesse mostrar algo. Entra em uma sala e é acompanhado por
Juno. Assim que chega, começa a explicar tudo o que iria acontecer.
Juno teria que conhecer tudo o que havia fora do espaço ainda
sob a guarda de Marádida. Havia uma sala arrumada, como se estivesse
preparada para uma reunião.
- Amanhã, nós iremos nos reunir aqui, com outros que
se encontram em outros espaços. Até lá, eu irei
explicar como tudo funciona.
- Quer dizer que outros estarão aqui conosco?
- Sim, outros estarão aqui conosco. Eu sou apenas um deles e
fui designado para lhe auxiliar. Nós conhecemos até que
ponto alguém está capacitado para abandonar tudo aquilo. É preciso
pensar em sair, mas a saída é complexa. Alguns desistem
no início, ou são exterminados pela Centrais. Você conseguiu,
agora precisa ajudar a outros e a todos os que querem conhecer novos
espaços. Amanhã, todos estarão aqui e você estará participando
da reunião.
Silêncio
"Somente o silêncio nos faz escutar o que realmente queremos
ouvir. Um minuto de silêncio para as vítimas do barulho.
Um minuto de silêncio. Na verdade, o que não é dito é bem
mais fácil de ser compreendido. Em tudo o que não foi
dito é que está a resposta para o incompreendido. O incompreendido
se esconde no não dito. É somente se calar e escutar.
E é no vazio, na ausência de respostas, que encontraremos
a compreensão dos fatos. A resposta não existe em palavras,
em gestos ou atos. A resposta inexiste no mundo material. O silêncio é a
resposta. Qual a pergunta? Toda a espontaneidade se perde no vazio
das complicações à procura de uma resposta. A
naturalidade desaparece ofuscada por conclusões, idéias,
planos, debates, discussões... Constróem gráficos,
montam maquetes... Eliminam cobaias, vítimas da procura. E a
resposta?"
Depois da reunião, Juno começa a entender toda uma situação,
diferente da que conhecia, em relação à vida fora
do espaço das Centrais.
Início de noite, lua crescente. Como uma janela entreaberta,
deixando transparecer uma pequena quantidade de luz entre um céu
começando a escurecer. Folhas voando soltas, numa noite de outono.
O vento passando entre as folhas, balançando as ramagens. Num
canto da mesa, papéis soltos, uma máquina de datilografia
e alguns rascunhos rabiscados. Toda a imagem de um abandono temporário.
Na janela, alguém observava a rua silenciosa, quase vazia, apenas
habitada pelo vento que passava como se fosse dono de todo aquele caminho,
indo em todas as direções, até mesmo na contramão.
Toda a mesmice de um cotidiano sendo repetida. Um plano que estava
sendo adiado. Apesar de não ser este o seu desejo, adiava mais
uma vez a mediocridade de continuar mais um dia de sua vida. Uma banda
de lua crescente, ainda no espaço, modificando toda a noite.
E estrelas, nos rastro do sol, ainda iluminando. Vento forte. As folhas
sendo levadas pelo vento que invadia o apartamento, espalhando os rascunhos.
Toda a imagem de um abandono.
Na TV que permanecia ligada, uma cena de um filme chamou-lhe a atenção.
Fez com que se desligasse um pouco da rua, do que acontecia lá fora.
Sentado em frente à TV, observava a cena em que um navio saía
em viagem num dia de tempestade, mas o céu ainda estava claro.
As pessoas pareciam felizes. Todos sorriam. Havia algo não previsto
dando um tempo para acontecer. Todos embarcaram contentes. O céu
foi escurecendo lentamente, mas as pessoas não ligavam. Tudo
estava bem. As pessoas passeavam à bordo, negando o mau tempo.
Todos festejavam contentes, fumavam, bebiam, se divertiam. Alguém
acendeu um cigarro e jogou um fósforo no chão. No porão
havia explosivos muito fortes, escondidos num determinado local, porque
estavam proibidos de serem transportados naquelas condições.
Reinava a tranqüilidade, enquanto o fogo começava a se
expandir. Três vultos subiram uma escada, em direção à parte
superior, passaram entre salões, corredores. Afastaram-se da
pequena fogueira que começava a se formar. Todos sabiam que
reinava a tranqüilidade, no entanto, a fogueira aumentava e alcançava
outros depósitos, próximos ao porão. A tempestade
aumentava, violentamente, balançando o navio com fúria.
O fogo chegou ao compartimento onde estavam os explosivos e começou
a explodir os tambores carregados. O navio foi tomado por explosões
e chamas. As pessoas foram lançadas no mar escuro, em pedaços.
Outras foram queimadas nas chamas, cada vez mais fortes. Um grande
silêncio reinou logo após a explosão. Só um
eco distante respondia ao silêncio. O mar começava a se
acalmar, lentamente. A cortina de nuvens cinza começava a desaparecer.
Todo o espaço modificado, toda a realidade transformada. O amanhecer
nascia com o silêncio e todo o céu começava a ser
tomado por um azul claro, com tonalidade rosa. Novas imagens começavam
a aparecer modificando o todo.
Novas ramagens balançavam ao vento forte que realçava
a sua beleza. Todas as folhas, caídas no chão, foram
levadas pelo vento que trouxe novos ares, novas experiências.
Os dias passavam e ele permanecia pensando nos rascunhos, no livro.
Pensava em tudo. Como tudo aquilo podia ter acontecido. Na verdade,
duvidava de tudo o que havia acontecido. De volta, tudo parecia ter
se tornado irreal. Irreal. Só que, agora, havia algo a mais.
A simples presença dela havia modificado todos os seus planos,
toda uma estrutura que estava prestes a desmoronar. Tudo havia sido
modificado. Não pensava que as coisas pudessem perder o seu
significado tão rapidamente. Pegou os rascunhos, os livros,
o que tinha na mesa e jogou tudo para o alto. Depois deitou no sofá e
ficou a olhar para o teto branco. Precisava, somente, encarar o vazio
por inteiro e depois preenchê-lo com tudo o que havia acontecido
para entender o significado que as coisas têm, mesmo quando pequenas
e insignificantes.
Eles subiram juntos as escadas do prédio, entraram no apartamento.
Ele mostrou a Amanda todo o espaço. Não havia previsto
o que estava acontecendo. Não esperava ter que se envolver com
mais alguém. Existiam outras que nem mais existiam para ele,
pois não se sentia mais um habitante deste mundo. Não
havia concluído o livro. Ou havia? Pouco interessava, a não
ser o significado do que estava acontecendo naquele momento. Percorreram
juntos todo o apartamento. Ele achou estranho, mas o quarto estava
grande, bem maior do que antes. Os rascunhos e os originais espalhados
no chão. Devia ter ventado muito. Na verdade, uma frente fria
havia aparecido de repente. Tinha deixado a janela aberta.
Passaram a noite juntos. No outro dia, ao acordar, levantou, acendeu
um cigarro e saiu procurando por ela. Encontrou um bilhete no papel
que deixara na máquina. Ela ligaria depois.
Resolveu ir à praia. O sol, finalmente, havia aparecido. Ficou
andando pela areia, pensando em tudo o que havia acontecido. O barulho
das teclas da máquina de datilografia ecoava em sua cabeça.
Estrelas
Noite de lua cheia, numa praia. Um ponto diferente no céu.
Uma estrela diferente no céu. Qual de nós seria um objeto
não identificado? Existia uma estrela diferente? O ponto brilhante
aproximou-se e uma energia diferente invadiu todo o espaço.
Uma luz forte passou veloz, deixando à mostra o objeto que a
gerava. Existia uma estrela diferente. Estava tudo revistado. Estávamos
ocupando e conhecendo todo o espaço. Não existia mais
nada invisível aos nossos olhos (?).
O vento forte voltou a vagar pelas ruas da cidade. Forte, balançando
as árvores, levando todas as folhas. O céu voltava a
ficar cinza e escuro. Tudo cinza e escuro. Ele subiu as escadas num
ato mecânico, com se não fosse a sua vontade. Como se
não tivesse vontade própria. Subiu degrau por degrau.
Pisadas fortes, mecânicas, quebrando o silêncio. O barulho
do vento, das árvores, da chuva. O céu cinza e escuro.
Os rascunhos no canto, a máquina na mesa. Deitado no sofá,
o corpo adormeceu, esquecendo-se de tudo. A janela entreaberta deixou
entrar um pouco da chuva e do vento frio. Depois de algum tempo, levantou-se
e abriu a porta, desceu a escada e caminhou em direção à chuva.
Andou na rua, molhando-se na chuva, sentindo o vento frio invadindo
os ossos. Caminhou no meio da rua, entre a chuva. Pulou, gritou, lavou-se
nas águas que caíam.
Todo o instante é inconseqüente. Toda a inconseqüência
depende de um instante inusitado. Toda a grandeza de estarmos presentes
em todo o instante que, talvez, não seja tão imenso,
mas deixe a desejar todo um novo instante. E estaremos sempre vagando
em busca de algo que não resida num final, mas permaneça
em constantes transformações. Toda a inconseqüência
que nos leve a tudo e a nada, pois sempre existe algo à frente.
E mundos e estrelas diferentes.
Deserto
A lua indo embora. Papéis espalhados pelo chão, uma
máquina de datilografia num caixote de madeira que substituía
a mesa. Outro caixote maior era o banco Estava morando em outro apartamento.
A mudança não havia chegado por completo, mas ele já se
adiantara. Ele estava estirado no chão, os braços abertos,
o corpo esticado. Passara o dia todo tentando terminar o livro. Já era
madrugada, mas para ele não havia horário. O tempo não
mais existia. Só o seu espaço, o quarto onde dormia.
Um espaço onde o tempo não existia. A lua estava descendo
e clareava o quarto, entrando pela janela. O livro, a lua, o tempo
que não existia e o sonho que tivera na noite anterior. Um sonho
estranho, confuso. Parecia querer lhe dizer algo. Não sabia
bem do que se tratava, mas sabia que havia algo. Deitado no chão,
vinham, à sua cabeça, cenas do que havia sonhado: uma
lua cheia com nuvem pretas que passavam e o mar tranqüilo onde
ela se refletia. Pessoas estranhas que caminhavam ao seu lado num imenso
deserto de areia, cães que encostavam latindo e uma sucessão
de cenas confusas. Não importava. Estava agora deitado no chão,
enquanto pensamentos vagos rondavam a sua cabeça. Sentia todo
o vazio de um momento consigo mesmo, sozinho.
A noite ia indo embora, aos pouco, junto com a lua, e o sol começava
a penetrar no quarto, deixando perceber a claridade do dia que chegava.
Ao seu lado, via os papéis no chão e a máquina
no mesmo lugar. Percebeu que passara a noite acordado. Não fizera
nada, somente se lembrara de fatos acontecidos que passaram fragmentados
por sua cabeça durante a noite. Levanta-se, procura pelo relógio
e verifica as horas. O dia estava começando às seis horas
da manhã, mas ele não havia dormido. O tempo que não
existia.
Colocou uma camisa no ombro e saiu, como num dia normal. Para ele era
anormal sair naquele horário, mas tudo parecia ser normal. O
dia que estava começando. Esperou que o elevador chegasse. Pensou
em acender um cigarro, já que o elevador não chegava.
Ao pegar a carteira, o elevador chegou, mas ele não possuiu
forçar o suficiente para voltar atrás e acendeu um cigarro.
No elevador, encontrou-se com a namorada de um cara que morava num
apartamento de cima. Tinha conhecido os dois assim que chegara no novo
prédio, quando passava pelo playground.
- Bom dia.
- Bom dia, respondeu ela, com um ar de quem estava bem à vontade.
O elevador parou no segundo andar. Entrou uma senhora. Fixou o olhar
e ele percebeu a sua cara de quem não havia gostado da fumaça
do cigarro que ocupava quase todo o espaço do elevador. Encarou
para ele com um olhar interrogador:
- O senhor fuma muitos cigarros ao dia?
- Depende, geralmente não fumo muitos. Depende. Por quê?
- Parece já estar bem acostumado a se trancar em ambientes fechados
e aproveitar ao máximo essa fumaça fedorenta. Pelo amor
de Deus, diz alterando o seu tom de voz, nós estamos num elevador!
Ela abriu a porta e saiu apressada. Ele não disse nada, continuou
a fumar, indiferente a tudo, enquanto saía, também, do
elevador.
Beatriz sorriu da cena que acabara de presenciar. Durante o tempo todo
pensava na insignificância do que vira. Ao sorrir, acenou para
ele que sorriu em resposta.
A senhora, que se encontrava no elevador, atravessou a rua e entrou
num carro. Ele a observou, sentada dentro do carro. Imaginou uma charrete
com dois cavalos, onde a senhora estaria sentada com seus chicotes
na mão, batendo forte nos cavalos. "Eia, vamos! Preguiçosos,
rápido!" Parou num ponto de ônibus. Enquanto esperava,
acendeu outro cigarro. Lembrou-se da senhora, sorriu e começou
a fumar, esquecendo do mundo em que havia acabado de penetrar e que
estava sempre ao seu redor.
Passado tudo, ele percebeu que o mais importante seria acabar tudo.
Partir para outra. Estava vivo, apesar de não estar muito satisfeito
com isso. Continuava ali, com sempre. A solução seria
levar tudo adiante, começar tudo outra vez.
Juno caminha numa vila próxima às Centrais
Uma vila, perto das Centrais. Eu estava ali, parado, em frente a uma
delas. Saí andando pelas ruas. Encontrei pessoas misturadas
a um monte de lixo. Elas catavam tudo o que lhes fosse útil.
Toda a sujeira das Centrais eram jogadas ali. Eu entrei na vila. Eram
casas num estado precário, mal construídas, onde habitavam
pessoas que escondiam a sua verdadeira beleza. A vida sobrevivia entre
esgotos, o lixo e péssimas condições de moradia.
Pensei em ir embora, mas desisti. Precisava andar por ali, pisar na
sujeira. Seria preciso limpar tudo aquilo. A solução
não seria transportar as pessoas para outros lugares, mas tentar
modificar todo o sistema das Centrais. Seria preciso abrir os espaços
fechados, onde pessoas aprisionadas viviam sem condições
de perceber a realidade em que se encontravam. Seria muito difícil
conseguir modificar os interesses daqueles que comandavam as Centrais.
As mudanças iriam acontecer aos poucos. Eles não iriam
resistir por toda a vida. Iriam morrer e nós permaneceríamos.
A partir daí, os limites não mais existiriam.
Prossegui andando. Observei muito bem o que vi. Depois, saí dali.
Precisava ir de encontro a Tuna. Era preciso encontrar uma maneira
de acabar com toda aquela situação, que só agora
eu enxergava de outro ângulo. Não era mais uma surpresa,
mas eu já havia conseguido enxergar tudo de um novo ângulo.
Mesa de bar
Era uma noite de lua cheia. Durante muito tempo não se via
uma lua assim como essa. Anunciava o verão que estava próximo.
O céu estava claro, cheio de estrelas. Tudo parecia estar bem.
Num barzinho, perto do mar, ele tomava cerveja com Stella. Ela estava
tranqüila e falava coisas sem sentido. Não sabia por que
estava ali. Não estava muito acostumada a tomar cerveja. Ficava
um pouco tonta. Quando ele a conheceu, sugeriu ir a um barzinho tomar
umas cervejas. Ela respondeu: "não sei, posso ficar um
pouco tonta". Ele riu, balançou a cabeça e disse: "você já é tonta
assim mesmo". Stella não compreendeu muito bem. Naquele
momento em que estava sentada na mesa do barzinho, tudo vinha à tona.
Misturado entre conversas de outras pessoas que bebiam, à voz
dele que falava coisas sem nexo, ao som. Estava interessada no que
ele dizia, mas não conseguia parar de pensar e de deixar sair
de sua cabeça coisas sem nexo. "não têm nada
a ver com o momento", pensava. No meio da confusão, que
rondava a sua cabeça, ouviu a voz dele:
- Eu tenho algo para falar com você.
- O que é? Pode dizer.
Ele não sabia por onde começar. Respirou fundo e tentou
disfarçar. Agora já tinha se entregado. Tinha que continuar,
Stella esperava ansiosa para ouvir o que ele tinha a dizer. Não
hesitou e respondeu à Stella que estava quase lhe perguntando
novamente o que era:
- Eu estou a fim de você.
Stella começou a rir, colocou a mão no rosto e encostou
a cabeça na mesa. Depois, levantou a cabeça, olhou para
ele e perguntou:
- É mesmo?
- Claro. Você acha que eu te chamei para sair, vir até aqui,
por quê? Eu estava a fim de sair com você.
Stella continuou rindo. Ele olhou para ela e deu-lhe um beijo. Ela
correspondeu àquele beijo. Durante algum tempo, duas línguas
se encontraram numa busca mútua. Depois se afastaram. Ela encostou
num canto, ele em outro. Stella sentiu-se um pouco tonta. Pensou: "deve
ter sido a cerveja". Não entendia por que sempre se sentia
tonta nessas horas. Ele sorriu: "nunca pensei que fosse tão
fácil", diz consigo mesmo. Bebeu o que restava da cerveja,
chamou o garçom, pediu a conta e chamou Stella para sair. Esperaram
por alguns minutos.
Dois amigos que conversavam animadamente, em pé, sentaram-se,
pediram uma cerveja e voltaram a conversar:
- É preciso contestar, gritar, mostrar a verdade, diz um deles.
- Claro, temos que ir à luta para conseguir o que queremos.
O papo continuou. O som misturado às vozes. A lua cheia lá fora,
cada vez mais branca, no meio da noite escura, que ficava clara com
a sua presença. No meio da fumaça dos cigarros, as pessoas
entravam e saíam Um casal chegou, acompanhado por mais duas
outras moças que sorriam alto. Sentaram todos numa mesa do canto
e pediram uma cerveja e quatro copos. Olharam um para o outro e voltaram
a dar risadas.
O garçom trouxe a conta. Ele pagou, levantou-se, abraçou
Stella e sorriu. Saíram abraçados.
Escombros
Tuna caminha sobre os escombros das Centrais. A luta pelo poder tinha
levado todos os planos pelos ares. As pessoas que habitavam as Centrais
são auxiliadas e transferidas para Marádida. Passam a
viver num paraíso fértil. Marádida era a terra
prometida. Para todos aqueles que viviam presos nas Centrais e não
conheciam o mundo lá fora. Uma nova realidade que, para eles,
nem existia. A ganância levou as Centrais à destruição.
O local onde ficava o comando das Centrais foi o primeiro local a explodir.
Depois, formou-se uma situação de catástrofe generalizada.
Muitos morreram. Os que conseguiram se salvar estavam agora sendo ajudados
e levados à Marádida. As pessoas que já moravam
em Marádida foram transferidas para Paraíza, uma nova
vila que ficava por perto.
Depois de resolvidos todos os problemas, Tuna vai para Aura, uma outra
vila mais distante que estava sendo fundada. Juno já estava
lá, esperando por ele. Ao chegar, começa a contar a Juno
sobre a situação em que se encontravam todos aqueles
que estavam presos nas Centrais. O vento manso de Aura, a brisa mexe
os seus cabelos e passa entre seus corpos, como se os acariciasse.
E Tuna explica a Juno:
- O mundo é um museu em construção. Somos todos
vistos como peças de um museu, onde se encontram objetos e os
ossos de todas as espécies que viveram em nosso mundo, em épocas
passadas.
Os óculos escuros
A calçada molhada. Ele olhava pela janela, via através
do vidro a manhã. Uma manhã cinzenta, dessas em que a
chuva já foi embora, deixou apenas a umidade tentando penetrar
em nossos ossos. A chuva impediu que ele saísse, mas agora não
sabe se deve. Os ensaios em que não somos senão cobaias.
No entanto, a movimentação entre diferentes mundos nos
permite conhecer a tudo o que experimentamos. O mundo que se movimenta
lá fora. A máquina que não pára. O mundo
em movimento. Os homens fazendo parte do movimento e movimentando o
mundo. Num instante, tudo muda. Uma cena totalmente inesperada começa
a acontecer.
Ela chegou no momento exato, como sempre. Desta vez, estava usando óculos
escuros. Isso o deixou intrigado. "Ela sempre detestou óculos
escuros", pensava ele. Estaria acontecendo alguma coisa estranha.
Ele foi até à janela. O céu continuava nublado,
um pouco cinza. Amanda estava toda de preto, com um blusão e óculos
escuros. "Por que ela não tirava os óculos?",
pensava intrigado.
- Você quer ir mesmo ao tal passeio no bosque?
- Claro, no bosque, na praia. Tanto faz.
Ele não conseguia encarar Amanda. Não entendia o porquê dos óculos
escuros. "Ela está querendo esconder algo". Ele resolveu
explicar que queria ir num parque, lá tinha muitas árvores
e ele queria se misturar ao verde. Queria ficar longe de tudo. "Por
que esse óculos escuros?"
- Vamos ficar aqui mesmo, disse Amanda. Sugiro ficar por aqui. Não
adianta fugir da realidade que nos cerca. Vamos nos impregnar da realidade
que se encontra ao nosso lado, até nos sentir totalmente sufocados
por ela e aí estaremos mais conscientes, aprendendo com a prática,
a experiência. A resposta pode estar aqui mesmo.
Amanda falava sem parar. Nem ela mesmo entendia tudo aquilo. Na verdade,
queria andar, explorar a sala, os quartos, a varanda. Ele foi à janela,
viu a rua e a vida que se movimentava nela. Amanda entrou na copa e
percebeu, através da porta aberta, uma maçã em
cima da mesa da cozinha. Ela olhou para a maçã e sentiu-se
totalmente atraída por aquela fruta, ali, à sua frente.
Dirigiu-se à cozinha, parou em frente à mesa a observar,
por alguns instantes, a maçã verde que ali se encontrava.
Amanda pegou a maçã entre os dedos e a acariciou, não
como se fosse uma simples fruta, mas como se fosse um ser vivo que
necessitava de carinho. Pensou em morder a maçã, colocá-la
entre os dentes e pronto. Iria sentir o prazer do gosto da maçã em
sua língua. Não, não iria morder assim, de vez.
Iria demorar um pouco, encostar os dentes, deixar o tempo passar, mas
não morderia a maçã naquele instante. Sentia como
se a maçã estivesse pedindo, implorando para ser mordida.
Ela queria adiar aquele instante, aquela sensação. No
fundo, desejaria ouvir a maçã gritando, implorando: "morde,
morde agora". Ela divertia-se com isso, com seus pensamentos e
toda a sensualidade que parecia tomar conta de todo o seu corpo. E
passava a maçã entre os dentes, roçava a língua
na pele fina da maçã que se encontrava em suas mãos.
Olhava para a maçã como se quisesse perceber as suas
sensações naquele momento. Dava risadas e olhava para
a maçã e dizia para si mesma: "eu sei que você quer
que eu lhe morda agora, mas eu não quero. Eu quero prolongar
esse prazer, até que você me implore, me peça para
lhe morder, até você não agüentar mais".
Divertia-se e sentia prazer em prolongar aquelas sensações.
Então, começou a cravar os dentes na maçã,
mas não continuou a morder. Parou assim que sentiu que a pele
fina que a cobria já havia sido traspassada por seus dentes.
Olhou novamente para a maçã e, finalmente, como se estivesse
atendendo a um pedido implorado, desejado, mordeu a maçã e
tirou um pedaço enorme, mastigando lentamente. Ao terminar de
comer o primeiro pedaço, começou a sentir uma sonolência
em todo o corpo. A maçã caiu de suas mãos e ela
adormeceu com a cabeça encostada na mesa da cozinha.
Ele continuava na janela, indiferente a tudo o que estivesse acontecendo
dentro do apartamento. Observava o que acontecia lá fora. Um ônibus
havia batido num carro de uma mulher que ia passando distraída.
Foram juntando curiosos que ouviram o barulho provocado durante o choque
entre os dois carros. A polícia chegou, conferiu os documentos.
Todos queriam falar ao mesmo tempo. A mulher parecia nervosa, apesar
de não deixar transparecer totalmente o estado em que se encontrava.
O motorista do ônibus, pensativo, defendia-se, explicava o que
de fato acontecera. Era a mesma senhora que dissera a ele sobre o cigarro,
no elevador. Não houve engarrafamento e tudo voltou ao normal
rapidamente. As explicações continuaram, junto aos dois
carros que continuavam parados no local. O motorista estava próximo
ao ônibus, enquanto a mulher mais um senhor de bigodes, provavelmente
seu esposo ou algum conhecido que chegara ao local, conversavam com
os policiais. Aquela cena o distraíra totalmente. Por alguns
instantes, esquecera de Amanda e de tudo o que tinha planejado.
Neste instante, Amanda despertara do estado de sonolência em
que se encontrava. Assustada com tudo aquilo que acontecera, voltou à sala,
mas não comentou nada com ele. Percebeu que ele está escrevendo
algo.
- É um texto que estou escrevendo para um jornal. Tenho que
terminar ainda hoje.
- E o seu livro?
- Foi lançado, comentado... E a vida continua. Estou escrevendo
um conto.
- Como se chama?
- A Última Grande Obra de Arte do Famoso Pintor. Tenho um rascunho.
Você gostaria de dar uma olhada.
- Sim, é claro. O título me deixou curiosa. De que se
trata?
- É uma espécie de sátira à situação
do artista perante a sociedade. Na verdade, foi inspirada em um famoso
pintor. É claro que a história é pura ficção.
Eis o rascunho.
Amanda sentou-se na poltrona ao lado e começou a ler. Ele ficou
olhando pela janela. Os carros que iam e vinham. A escuridão
da manhã cinzenta. A escuridão da cidade. Parecia haver
uma luz bem longe clareando aquela manhã cinzenta. Agora ele
estava enxergando a luz no final do túnel. Existia uma luz no
final do túnel.
Chuvas
A chuva caía forte, sinal de que o inverno este ano será muito
frio. A chuva caindo forte, as janelas fechadas, as luzes apagadas,
a não ser uma única janela de um ou outro prédio.
As pessoas aproveitam a chuva para dormir. É tão gostoso
dormir com o barulho da chuva. Do outro lado, de uma das janelas que
deixam transparecer uma pequena dose de claridade de luz, junto a tanta
escuridão, num pequeno sofá, encontrava-se alguém
que passava indiferente, assim como todas as outras pessoas, diante
do espetáculo que a chuva proporcionava. E pensava tanto que
havia esquecido de abrir a janela e observar a rua molhada, os carros
a jogar lama para todos os lados. Sentir a água que caía
insistentemente descer do rosto, molhar o cabelo, derreter a máscara
de papel amarrada no rosto. A sensação, ao receber em
nosso corpo as gotas que caem e inundam o nosso interior, é de
que a chuva leva tudo. A chuva leva tudo. Talvez, algo nunca sentido
antes. Ocorre um transbordamento do rio que existe em nosso interior.
Renova-se toda a água que possuímos. Passamos a ser outro,
dentro de nós mesmos. Vai-se embora toda a sujeira, juntamente
com a água. Toda a sujeira da rua que, às vezes, entope
a boca dos esgotos. E, pensando no que fazer no dia seguinte, no sofá,
deitado, acabou dormindo. Dormindo para poder viver. Dormir significava
esquecer, fechar os olhos para as grades ao redor. Dormir seria negar
a existência de uma prisão. Seria ter um momento de liberdade.
Poder dar a volta fora da gaiola. A televisão ligada, transmitindo
um desses programas de humor que já não têm mais
graça. Numa mesa ao lado, um jornal de notícias que,
apesar de não serem as mesmas, são iguais às de
sempre.
Cacau Novaes - Autor
|