Uma luz no final do túnel

Autor: Cacau Novaes

Uma canção desconhecida

Estava começando a chover, os primeiros pingos começaram a cair. Tudo parecia ser igual, como numa fotografia em preto e branco. O céu começava a mudar de cor, nuvens cinzas cobriam o azul. Uma união de duas cores que se alternavam formando imagens e vários outros mundos diferentes.
O homem deseja, e cada vez mais, tornar-se eterno. O elixir da longa vida, tão procurado por todos, parece estar prestes a ser descoberto. É imensa a força que o ser humano absorve dentro do seu mundo psicológico para atrair a eternidade esperada, desde tempos remotos. Sempre o homem esteve em busca daquilo que o tornaria imortal. A sua ânsia cresce, durante os tempos, por momentos que prolonguem a sua tão limitada vida.
Como encarar a eternidade? Abre-se a possibilidade de uma outra vida, além da terrena. Talvez, por isso, o ser humano jogue todas as suas frustrações e fracassos, em não conseguir o prolongamento de sua vida, na busca de mundos imaginários, que viriam após esse em que vivemos. Abre-se a possibilidade do corpo humano perecer, enquanto uma outra parte, o seu espírito, permaneceria imortal, abandonando aquele corpo em que se encontrava e partindo para novas aventuras. Uma delas seria o descanso, depois de toda uma saga. Além, é claro, de não esquecermos o bem e o mal - o inferno e o céu - que dividem aqueles que por aqui passarem. Outros acreditam numa volta à terra, através de reencarnações posteriores à sua morte. Mais outras teorias são expostas e impostas, nem sempre analisadas, mas aceitas.
O certo é que a vida e a morte não constituem difíceis mistérios a ser desvendados. Defini-las não é dever de nenhum de nós, mas sim passar por cada um deles para poder compreender os seus significados. É preciso, no entanto, ter um certo senso de percepção e não deixar escapar aos nossos sentidos as pistas que nos são dadas. É necessário ir mais além do que o visto por nossos olhos, penetrar no universo desconhecido e descobrir o verdadeiro sentido das coisas que nos cercam, por mais estranhas e irreais que pareçam ser. O mistério sempre permanecerá escondido e, ao mesmo tempo, estará esperando que o desvendem. Ele nunca se mostrará ao todo. Aquele que consegue penetrar no desconhecido desvenda a existência das coisas e a sua própria existência.
O conhecer individual de nada adiantará, se não for utilizado para que outros possam chegar a outros mundos através dele. O conjunto do conhecer individual contribuirá para que se conheça o ilimitado. Através de várias teorias é que se pode chegar a fatos concretos. Nada é totalmente certo, visto de um único ângulo, mas pode dar início a um novo caminho que venha a dar no ponto procurado. Não é de complicadas teorias que se pode provar o que ainda não conhecemos, mas através de conclusões simples, que nos levam a uma resposta comum. Tudo será explicado com o passar do tempo. O ser humano sempre caminhará em direção à sabedoria cósmica, que se encontra no espaço aparentemente inatingível. As descobertas acontecerão, pois o homem busca, no interior de sua mente, a inteligência que se esconde e esse potencial aumenta, a cada dia, e faz com que progrida na sua busca do desconhecido.
Tudo parecia ser igual, nuvens cinzas cobriam o azul do céu. Os pingos da chuva entravam pela janela. O vento espalhava os papéis que estavam em cima da mesa. Deitado no sofá, ele sonhava indiferente a tudo o que acontecia.
Carros de todos os lados começavam a chegar. Juntavam-se e iniciavam as suas trajetórias. Corriam em alta velocidade fazendo um barulho capaz de quebrar todas as vidraças existentes, de arrebentar os tímpanos. Não paravam e, de seus canos, saíam fumaças pretas escurecendo as ruas, subindo para o céu. Muita fumaça, muito barulho, muitos carros. De onde vinham? De todos os lados, de todas as direções, soltando muita fumaça, correndo em alta velocidade, destruindo tudo o que encontravam pela frente. Não respeitavam nada. Quebravam tudo. Vinham para escurecer a cidade e soltavam suas fumaças desesperadamente, com muita força, como se necessitassem poluir todo o ambiente. E o céu tornava-se, cada vez mais, escuro. As pessoas corriam e ele não sabia o que fazer. Ficava parado num canto, encostado à parede de uma loja, sem poder se mover. Tentava correr, mas não conseguia sair do lugar em que se encontrava. Assistia apavorado a tudo aquilo, mas não pode fazer nada.
Tudo começava a perder a cor, a ficar preto. O céu ficava mais escuro ainda. Seus dedos começavam a escurecer, depois as mão, os braços, os pés, as pernas, a barriga, todo o seu corpo e ele começava a sentir uma sensação de angústia, de peso. Parecia que o seu corpo estava sendo invadido por algo. Sentia-se preso e percebia que seus braços e suas pernas estavam acorrentadas. Movimentava o corpo, tentava se livrar, mas não conseguia. Olhava para baixo e via a cor preta subindo para o pescoço, sentia uma abertura em sua cabeça. Um enorme tubo está entrando em sua cabeça e derramando petróleo em seu corpo. Pensava em gritar, mas a voz não saía.
Os carros paravam de soltar fumaça, de correr de poluir o céu e já não se enxergava mais o azul, o sol. Tudo nublado, como se fosse chover, tudo escuro. A fumaça entrando e saindo pelo nariz e pela boca, entupindo os pulmões, escurecendo o céu. Ele olhava para o alto, olhava ao seu redor: a mesma coisa, tudo preto. Tentava correr e não conseguia, gritava e sua voz não saía.
De repente, as corrente quebraram e ele saiu correndo, como um pássaro que voa pela porta aberta de sua gaiola, depois de meses ansiando pela liberdade. Corria sem olhar para trás. Percebia que algo lhe perseguia, ouvia o barulho infernal dos carros, cada vez mais próximos. Seu medo aumentava e ele corria com mais pressa, como um louco. Não respeitava mais nada, corria somente. Ao dobrar uma esquina, viu, do outro lado da rua, uma escada. Atravessou depressa, sem parar de correr, em direção à escada. Os degraus pareciam intermináveis e a escada parecia aumentar, a cada degrau que pisava. Pensava em voltar, descer a escada. Encostou numa parede e viu os carros que passavam lá embaixo. O céu continuava escuro, começavam a cair as primeiras gotas. A chuva forte molhava todo o seu corpo. Ele continuava a subir a escada, molhado e cansado. Olhou novamente para baixo e viu a água subindo e inundando a rua, subindo os degraus. Desistiu e sentou-se. Com a cabeça apoiada nos joelhos, esperou que tudo passasse.
O sol nascendo, o azul do céu começava a aparecer. Ele acordou e ficou olhando para o teto branco de seu apartamento. Ouviu pássaros cantando alegres em árvores próximas dali. Uma canção desconhecida.

As torres

Rose estava na janela observando os carros que passavam lá embaixo. Ia se dirigir a ele que estava datilografando o seu livro, num canto da sala, quando ouviu a voz de alguém gritando por nomes estranhos. Olhou para a rua e viu uma mulher mal vestida gritando palavras incompreensíveis. Ela dirige-se a ele:
- Veja que loucura! Quem será que ela está chamando?
- Todos os dias ela pára por aqui, sozinha, e chama por pessoas que devem ter morado em algum lugar aqui por perto. Todos os dias é a mesma coisa. Chega, chama por essa pessoas e sai feito louca. Não pára, não conversa com ninguém e sai andando pelas ruas, à toa. O local onde estão construídos esses prédios, era antes uma área onde existiam chácaras. Os centros urbanos foram crescendo e o povo ocupou o que restava. Morros cheios de favelas. Provavelmente, as pessoas que ela procura, se é que procura por alguém verdadeiramente, moraram aqui. Deviam ser donos de alguma chácara. Ninguém conhece a sua história. Ninguém sabe o que aconteceu no passado. O local foi tomado por prédios, condomínios, favelas, esgotos... E ela, uma louca, caminha pelas ruas da cidade atrás de alguém. Chama sempre por nomes estranhos, mas que lhe parecem familiares. Andando pela rua, ela conhece tudo e todos. E vive desligada de tudo isso que a cerca. Vive um mundo exclusivamente seu. Bem acima de nós, as torres de TV, que nos trazem notícias do mundo inteiro.
Ele percebe que Rose não está sintonizada, tanto quanto parece, em relação ao que ele está falando. Ele mantém-se numa postura natural. Tudo permanece normal, desde o momento em que Rose chegou. O estranho é que aquela história toda modificou tudo o que ele havia planejado. Rose comentou que alguns peixes a atacaram, quando entrou numa lagoa para mergulhar, durante a semana anterior.
- Se um peixe nos ataca, não devemos nos assustar. Afinal, não somos nós mesmos quem jogamos as iscas?
Rose começa a rir, mas depois olha estranho para ele.
- Por que você começou a me olhar assim, tão estranho?
Rose fica mais séria ainda e vira-se para a janela. Depois de algum tempo em silêncio, volta-se para ele:
- Você deve estar sentindo algo. Não seria tormento, angústia, dúvidas ou, até mesmo, alegria? Nada acontece sem que aconteça algo que impulsione os primeiros movimentos. As plantas crescem porque lançaram as suas sementes na terra: o homem, os pássaros... a vida.
- A vida? O que tem a ver tudo isso que você começou a falar de uma hora para outra?
Rose agora torna-se mais séria, já que nota que ele se interessara pelo que estava dizendo, e continua:
- Sei que não tem nenhum sentido para você essas minhas reflexões, nem para qualquer outra pessoa, pois são exclusivamente minhas. O que me interessa, no entanto, é a curiosidade dos que me ouvem e observar a maneira como eles reagem ao que estou dizendo e que, às vezes, nem eu mesmo entendo.
Antes que ele pudesse falar algo, Rose foi ao quarto, pegou sua mochila, abriu a porta da sala e desceu correndo as escadas do prédio. Ele saiu em sua direção, mas quando chegou na porta só ouviu os seus passos apressados, pela escada abaixo.
Não conseguira alcançar Rose. Estava cansado, descera as escadas correndo e não conseguira alcançar Rose. Ela entrou num táxi e foi embora. Ele subiu as escadas como se não estivesse em casa, devagar, lento. Sempre subira aquelas escadas e sempre sentira vontade de subi-las correndo. Subia as escadas que o levava ao espaço onde ficava nos momentos em que queria ficar só ou escrever. Quando abriu as portas, encontrou os rascunhos, os papéis espalhados pelos quatro cantos da sala. Tudo voltava a mais uma rotina normal. Uma rotina ansiando transformações.
Não conseguiu enxergar mais nada à sua frente. Sentou-se num dos degraus e fechou completamente os olhos. Só pensava em se desligar de tudo que o esperava além da porta do apartamento onde morava.
" Imagino cada instante como se diferente fosse. Talvez, por isso não me importe com novos ou velhos acontecimentos, porque sempre diferentes foram. Todo instante é um, único e só. A sensação que sinto é como se eu fosse outro. O dia é outro, o instante é outro e eu já não sou o mesmo de ontem. Nós mudamos assim como o dia muda. A única coisa que nos faz continuar ligados ao passado é o ato mecânico, adquirido no decorrer de nossa existência, de fazer ou continuar fazendo para que alcance o final.
Chegar sempre ao final. Por isso continuo aqui: para chegar ao final. Tudo pronto para ser feito. Só que, hoje, as coisas estão diferentes. O mundo está diferente. Tudo não passa de uma rotina normal, mas eu estou percebendo a diferença em mim. O livro foi a única forma de me manter vivo, que me fez chegar até aqui. Um ato mecânico, para chegar a um final. As transformações podem acontecer a qualquer instante."

Uma luz no final do túnel

Um indeterminado desejo de encontros que o levasse a novos caminhos. Assim, Juno conseguia percorrer novos espaços e descobria, a cada novo encontro, a diferença que existia entre o mundo em que se encontrava, num determinado momento, e o que existia fora dele. O querer sempre mais, não por insegurança, mas por falta de segurança. Era o querer desprotegido, o motivo além da flor da pele. E ainda existiam muitos mundos que não conhecia, mas o conhecer não havia se esgotado. Precisava expandir-se e mudar a situação, o jogo. Às vezes, parava e observava melhor. Sentia cada barulho, por mínimo que fosse. Cada barulho. Passeava entre grutas, visitava lugares estranhos, diferentes. Sempre uma nova descoberta. Tuna o havia ensinado como se expandir, agora precisava ir sozinho. Juno observava atento a tudo o que via. Percorria mundos dentro de outros mundos. O inatingível sendo alcançado, o conhecer se manifestando, aparecendo. Outras vezes, passava rápido, conhecendo superficialmente, mas se informando. Era só rascunho arquivado para nunca mais ser usado. Ou, quem sabe, um dia precisasse. Um indeterminado desejo. Juno havia avançado bem mais do que podia. Tuna seria alguém indicado para lhe guiar. Via Cristal com maior transparência. Já estava a um grau máximo. Conseguira avançar. Depois da prisão, voltara melhor, com uma sabedoria maior. Tivera muito tempo para pensar e analisou tudo por que tinha passado.
Juno conseguira falar com Tuna, tinha dado um grande avanço. Tuna estava, e cada vez mais, indo de encontro ao subterrâneo. Sabia que existia uma luz no final do túnel. Via-se, no entanto, apenas um pequeno ponto luminoso que surgia. Uma luz que brilhava forte, apesar de pequena. Às vezes, mudava de cor. De uma cor vermelha, passava a ser laranja, depois amarela e, posteriormente, branca. Algum tempo depois, mudava de cor novamente, no sentido inverso: da cor branca à vermelha. Tuna seguia tentando alcançar o final do túnel.
Para Juno, uma segunda pessoa a entrar no túnel, era bem mais perigoso. Era preciso estar preparado. Todo descuido seria fatal. Tuna sabia que o momento seria indicado. Não era mais adiar o que estava por acontecer. Não tinha mais o controle da situação. Não poderia adiar, estava tudo planejado, tudo pronto para ser feito.
Um céu cinzento, com manchas vermelhas. Uma imagem única. Tuna observa o céu: "um céu totalmente cinza, não fossem essas manchas vermelhas..." Observa Juno que caminha em sua direção. Dirige-se ao abismo e mostra o sol que descia num céu vermelho e cinza:
- Estas imagens parecem que já foram vistas anteriormente. Não seriam sempre as mesmas? Não acontece o repetir, mas parece existir uma única imagem. A transformação acontece a todo instante e deixa o espaço aberto. O espaço é livre para que as cores se misturem. Nunca mais veremos estas imagens, mas outras novas que surgirão.
Juno fez um sinal com a mão, queria falar algo. Tuna continua a falar:
- É algo que está acontecendo naturalmente. Aqui estão os arquivos de outros que passaram por fases e estágios parecidos com esses que você teve que enfrentar. Foram auxiliados por outros que trabalham comigo. São vários, em lugares diferentes, tentando ajudar ao que lutam, querem sair das Centrais a qualquer custo. Nós iremos avaliar a saída de cada um de vocês, onde falharam e o que têm a fazer.
Tuna entrega uma pasta a Juno. Os arquivos, uma luz no final do túnel. Tudo estava certo, não iria acontecer nada anormal. A hora havia chegado, não mais podia mudar a situação. Ele fora levado por si mesmo até ali. Tudo estava programado nos mínimos detalhes. Estava ali, cumprindo o que estava programado. Ele já estava ali: não podia mais voltar atrás, não podia mais olhar para trás. Juno mantém-se cheio de dúvidas. Pega o arquivo com as mãos e pergunta a Tuna:
- E depois? Iremos continuar aqui?
- Não, respondeu Tuna. Somente nos reuniremos aqui, até que tudo seja consumado.

Prisão

Ele entrara naquele ônibus com a intenção de chegar mais rápido ao seu apartamento, já que percorria um trajeto bem maior, mas o trânsito, em compensação, era mais livre. Sentou-se perto do cobrador que conversava com um passageiro sentado do outro lado. Isso fazia com que a conversa fosse ouvida abertamente por uma parte dos passageiros que se encontravam no ônibus. "Não sei até que ponto as pessoas se deixam levar. Sempre sentadas, sem olhar para os lados, num ônibus qualquer, sendo transportadas para algum lugar. E vão e vêm, sempre. Estão em todos os lugares, mas não sabem por que estão. Todas elas têm uma máscara, com uma expressão triste, ora indiferente. Movem-se sem, na verdade, sair do lugar."
O cobrador conversava entusiasmado e agora dizia em voz ainda mais alta, como se quisesse que todos o ouvissem:
- Se meu pai fosse um cafajeste, eu teria coragem de mandar ele prá cadeia. É isso mesmo: prá cadeia. Não, isso não. Em minha coroa ninguém põe a mão. Se ele tocasse a mão em minha coroa, eu mandava ele prá cadeia.
Vendo que ninguém se manifestava em relação ao que tinha acabado de dizer, começou a contar o dinheiro que tinha em mão, enquanto olhava para ele que estava tão próximo e parecia estar distante. Não entrava em sua cabeça a idéia de que alguém pudesse permanecer indiferente à rotina que o cercava de todos os lados. Ele ia distraído em seus pensamentos: "por que se satisfazer com tão pouco se o muito existe? Por que não procurar se expandir? É por se contentar com pouco que o ser humano se esquece de conhecer novos espaços. É preciso acabar com a estagnação, é preciso se movimentar. A acomodação produz ignorância que, por sua vez, vai dar numa inconsciência generalizada. O necessário é desrotular tudo. Não existe contra-indicação, nem a indicação certa existe. Acabar de vez com os rótulos..."
Ele olhou para o lado e viu entre os vidros da janela do ônibus um gafanhoto preso, sem poder se mover. Viajando imóvel, quieto e despercebido. Não sabia como fora parar ali. Ia naquela viagem que não sabia quando iria terminar. Para onde o estariam levando? Perguntava a si mesmo e não obtinha resposta. Permanecia imóvel em seu lugar, entre os vidros das janelas do ônibus. Não podia se mexer. As luzes da cidade começavam a iluminar a noite, com seu letreiros coloridos. "Todos os instantes são preenchidos por luzes que geram brilhos. E cores passeiam pelo universo afora, à procura de novas imagens. Novos encontros dentro de enormes momentos. Os segredos dificilmente serão revelados e a mina sempre permanecerá escondida. Animal jogado ao tempo. E não é, também, uma maneira de vida? Não entendo por que existe tanta coisa inacabada. Ou compreendo porque existem e fazem parte do meio. Compreendo tudo, menos a estagnação. Não existe contra-indicação, nem a indicação certa existe. Não é preciso descobrir fórmulas, rotular modos... Somente existe a verdadeira história que nunca foi escrita, mas escondida durante todo o tempo."

Tambores

Juno chega à Marádida. Na verdade, todo o espaço que ali se encontrava já estava ocupado pelas Centrais. Não era mais o espaço de antes, não era mais um lugar totalmente seguro, distante da vida que se levava nas Centrais. "As horas não existem, o tempo não pode ser medido. O espaço pode desmaterializar-se com tudo o que faz parte dele. O espaço é imenso e as estrelas são muitas, não podemos vê-las totalmente. Não sei quando todos irão percorrer toda aquela claridade negada, quase nunca vista, nunca enxergada. Não sei se saberão quando. Talvez, nem importe quando." Tambores batem durante toda a noite e luzes fortes são lançadas em direção a Marádida. Tudo pode ser visto, ouvido, mas Marádida permanece imóvel em seu silêncio. É vista como um todo, numa visão integral de sua grandeza. "Não podemos dizer onde todos estão. Nunca se sabe onde estão, nem quantos são. Não sei quando todos irão perceber toda aquela claridade negada. O silêncio se faz presente em todos os momentos. Por que não explodi-los? As cores são negadas, mas existem. Ninguém, na verdade, permanece preso. A privacidade das cabeças permanecerão sempre inexploradas, inexplicadas. Ouve-se, somente, tambores que batem durante toda a noite. Não se sabe de onde vem o som, mas permanece a noite inteira, com se nunca fosse parar."
Juno lembra-se dos sons e percebe que eles já não são ouvidos ali onde se encontrava. Havia ultrapassado todo o limite pertencente a Marádida. Podia agora percorrer novos espaços, ir mais além do que podia antes. Em sua cabeça permaneciam interrogações: "Por quem eram tocados os tambores? Por que todas as noites ouviam-se tambores? De onde vinham os sons?" Tuna compreendia todas as dúvidas. Juno havia ultrapassado o espaço de Marádida, mas ainda não sabia de tudo. Em Marádida nunca se sabia verdadeiramente de tudo o que acontecia por lá. Ao contrário do que pensara antes, ninguém sabia da existência real do todo. Juno teria que saber da veracidade escondida. Tuna aproxima-se de Juno e diz:
- Todo o barulho ouvido, durante a noite, é algo provocado pela estagnação de mentes paralisadas. Os habitantes de Marádida não conseguem enxergar a realidade, nem ouvi-la, mas enxergam tudo o que lhes é mandado enxergar. Criam imagens e sons e eles não sabem o porquê. Eu estava vendo, sem ser notado, durante todo o tempo em que você vinha até onde nos encontramos hoje. Não existem tambores, não existiam os sons que você ouvia lá.
Juno fica calado por um momento. Não entende o que Tuna acaba de lhe dizer e pergunta:
- Não existem tambores? De onde vêm os sons?
- O silêncio provocava o barulho dos tambores. O silêncio provocava a estagnação e, consequentemente, ninguém conseguia explicar como tudo acontecia. Nem mesmo você. Juno, você está começando a perceber a existência do espaço negado. Em Marádida, todas as coisas eram negadas para que somente fossem aceitas o que as Centrais quisessem. A verdade permanecia escondida.
Tuna levanta-se e chama Juno com um gesto das mãos, como se quisesse mostrar algo. Entra em uma sala e é acompanhado por Juno. Assim que chega, começa a explicar tudo o que iria acontecer. Juno teria que conhecer tudo o que havia fora do espaço ainda sob a guarda de Marádida. Havia uma sala arrumada, como se estivesse preparada para uma reunião.
- Amanhã, nós iremos nos reunir aqui, com outros que se encontram em outros espaços. Até lá, eu irei explicar como tudo funciona.
- Quer dizer que outros estarão aqui conosco?
- Sim, outros estarão aqui conosco. Eu sou apenas um deles e fui designado para lhe auxiliar. Nós conhecemos até que ponto alguém está capacitado para abandonar tudo aquilo. É preciso pensar em sair, mas a saída é complexa. Alguns desistem no início, ou são exterminados pela Centrais. Você conseguiu, agora precisa ajudar a outros e a todos os que querem conhecer novos espaços. Amanhã, todos estarão aqui e você estará participando da reunião.

Silêncio

"Somente o silêncio nos faz escutar o que realmente queremos ouvir. Um minuto de silêncio para as vítimas do barulho. Um minuto de silêncio. Na verdade, o que não é dito é bem mais fácil de ser compreendido. Em tudo o que não foi dito é que está a resposta para o incompreendido. O incompreendido se esconde no não dito. É somente se calar e escutar. E é no vazio, na ausência de respostas, que encontraremos a compreensão dos fatos. A resposta não existe em palavras, em gestos ou atos. A resposta inexiste no mundo material. O silêncio é a resposta. Qual a pergunta? Toda a espontaneidade se perde no vazio das complicações à procura de uma resposta. A naturalidade desaparece ofuscada por conclusões, idéias, planos, debates, discussões... Constróem gráficos, montam maquetes... Eliminam cobaias, vítimas da procura. E a resposta?"
Depois da reunião, Juno começa a entender toda uma situação, diferente da que conhecia, em relação à vida fora do espaço das Centrais.
Início de noite, lua crescente. Como uma janela entreaberta, deixando transparecer uma pequena quantidade de luz entre um céu começando a escurecer. Folhas voando soltas, numa noite de outono. O vento passando entre as folhas, balançando as ramagens. Num canto da mesa, papéis soltos, uma máquina de datilografia e alguns rascunhos rabiscados. Toda a imagem de um abandono temporário. Na janela, alguém observava a rua silenciosa, quase vazia, apenas habitada pelo vento que passava como se fosse dono de todo aquele caminho, indo em todas as direções, até mesmo na contramão.
Toda a mesmice de um cotidiano sendo repetida. Um plano que estava sendo adiado. Apesar de não ser este o seu desejo, adiava mais uma vez a mediocridade de continuar mais um dia de sua vida. Uma banda de lua crescente, ainda no espaço, modificando toda a noite. E estrelas, nos rastro do sol, ainda iluminando. Vento forte. As folhas sendo levadas pelo vento que invadia o apartamento, espalhando os rascunhos. Toda a imagem de um abandono.
Na TV que permanecia ligada, uma cena de um filme chamou-lhe a atenção. Fez com que se desligasse um pouco da rua, do que acontecia lá fora. Sentado em frente à TV, observava a cena em que um navio saía em viagem num dia de tempestade, mas o céu ainda estava claro. As pessoas pareciam felizes. Todos sorriam. Havia algo não previsto dando um tempo para acontecer. Todos embarcaram contentes. O céu foi escurecendo lentamente, mas as pessoas não ligavam. Tudo estava bem. As pessoas passeavam à bordo, negando o mau tempo. Todos festejavam contentes, fumavam, bebiam, se divertiam. Alguém acendeu um cigarro e jogou um fósforo no chão. No porão havia explosivos muito fortes, escondidos num determinado local, porque estavam proibidos de serem transportados naquelas condições. Reinava a tranqüilidade, enquanto o fogo começava a se expandir. Três vultos subiram uma escada, em direção à parte superior, passaram entre salões, corredores. Afastaram-se da pequena fogueira que começava a se formar. Todos sabiam que reinava a tranqüilidade, no entanto, a fogueira aumentava e alcançava outros depósitos, próximos ao porão. A tempestade aumentava, violentamente, balançando o navio com fúria. O fogo chegou ao compartimento onde estavam os explosivos e começou a explodir os tambores carregados. O navio foi tomado por explosões e chamas. As pessoas foram lançadas no mar escuro, em pedaços. Outras foram queimadas nas chamas, cada vez mais fortes. Um grande silêncio reinou logo após a explosão. Só um eco distante respondia ao silêncio. O mar começava a se acalmar, lentamente. A cortina de nuvens cinza começava a desaparecer. Todo o espaço modificado, toda a realidade transformada. O amanhecer nascia com o silêncio e todo o céu começava a ser tomado por um azul claro, com tonalidade rosa. Novas imagens começavam a aparecer modificando o todo.
Novas ramagens balançavam ao vento forte que realçava a sua beleza. Todas as folhas, caídas no chão, foram levadas pelo vento que trouxe novos ares, novas experiências.
Os dias passavam e ele permanecia pensando nos rascunhos, no livro. Pensava em tudo. Como tudo aquilo podia ter acontecido. Na verdade, duvidava de tudo o que havia acontecido. De volta, tudo parecia ter se tornado irreal. Irreal. Só que, agora, havia algo a mais. A simples presença dela havia modificado todos os seus planos, toda uma estrutura que estava prestes a desmoronar. Tudo havia sido modificado. Não pensava que as coisas pudessem perder o seu significado tão rapidamente. Pegou os rascunhos, os livros, o que tinha na mesa e jogou tudo para o alto. Depois deitou no sofá e ficou a olhar para o teto branco. Precisava, somente, encarar o vazio por inteiro e depois preenchê-lo com tudo o que havia acontecido para entender o significado que as coisas têm, mesmo quando pequenas e insignificantes.
Eles subiram juntos as escadas do prédio, entraram no apartamento. Ele mostrou a Amanda todo o espaço. Não havia previsto o que estava acontecendo. Não esperava ter que se envolver com mais alguém. Existiam outras que nem mais existiam para ele, pois não se sentia mais um habitante deste mundo. Não havia concluído o livro. Ou havia? Pouco interessava, a não ser o significado do que estava acontecendo naquele momento. Percorreram juntos todo o apartamento. Ele achou estranho, mas o quarto estava grande, bem maior do que antes. Os rascunhos e os originais espalhados no chão. Devia ter ventado muito. Na verdade, uma frente fria havia aparecido de repente. Tinha deixado a janela aberta.
Passaram a noite juntos. No outro dia, ao acordar, levantou, acendeu um cigarro e saiu procurando por ela. Encontrou um bilhete no papel que deixara na máquina. Ela ligaria depois.
Resolveu ir à praia. O sol, finalmente, havia aparecido. Ficou andando pela areia, pensando em tudo o que havia acontecido. O barulho das teclas da máquina de datilografia ecoava em sua cabeça.

Estrelas

Noite de lua cheia, numa praia. Um ponto diferente no céu. Uma estrela diferente no céu. Qual de nós seria um objeto não identificado? Existia uma estrela diferente? O ponto brilhante aproximou-se e uma energia diferente invadiu todo o espaço. Uma luz forte passou veloz, deixando à mostra o objeto que a gerava. Existia uma estrela diferente. Estava tudo revistado. Estávamos ocupando e conhecendo todo o espaço. Não existia mais nada invisível aos nossos olhos (?).
O vento forte voltou a vagar pelas ruas da cidade. Forte, balançando as árvores, levando todas as folhas. O céu voltava a ficar cinza e escuro. Tudo cinza e escuro. Ele subiu as escadas num ato mecânico, com se não fosse a sua vontade. Como se não tivesse vontade própria. Subiu degrau por degrau. Pisadas fortes, mecânicas, quebrando o silêncio. O barulho do vento, das árvores, da chuva. O céu cinza e escuro. Os rascunhos no canto, a máquina na mesa. Deitado no sofá, o corpo adormeceu, esquecendo-se de tudo. A janela entreaberta deixou entrar um pouco da chuva e do vento frio. Depois de algum tempo, levantou-se e abriu a porta, desceu a escada e caminhou em direção à chuva. Andou na rua, molhando-se na chuva, sentindo o vento frio invadindo os ossos. Caminhou no meio da rua, entre a chuva. Pulou, gritou, lavou-se nas águas que caíam.
Todo o instante é inconseqüente. Toda a inconseqüência depende de um instante inusitado. Toda a grandeza de estarmos presentes em todo o instante que, talvez, não seja tão imenso, mas deixe a desejar todo um novo instante. E estaremos sempre vagando em busca de algo que não resida num final, mas permaneça em constantes transformações. Toda a inconseqüência que nos leve a tudo e a nada, pois sempre existe algo à frente. E mundos e estrelas diferentes.

Deserto

A lua indo embora. Papéis espalhados pelo chão, uma máquina de datilografia num caixote de madeira que substituía a mesa. Outro caixote maior era o banco Estava morando em outro apartamento. A mudança não havia chegado por completo, mas ele já se adiantara. Ele estava estirado no chão, os braços abertos, o corpo esticado. Passara o dia todo tentando terminar o livro. Já era madrugada, mas para ele não havia horário. O tempo não mais existia. Só o seu espaço, o quarto onde dormia. Um espaço onde o tempo não existia. A lua estava descendo e clareava o quarto, entrando pela janela. O livro, a lua, o tempo que não existia e o sonho que tivera na noite anterior. Um sonho estranho, confuso. Parecia querer lhe dizer algo. Não sabia bem do que se tratava, mas sabia que havia algo. Deitado no chão, vinham, à sua cabeça, cenas do que havia sonhado: uma lua cheia com nuvem pretas que passavam e o mar tranqüilo onde ela se refletia. Pessoas estranhas que caminhavam ao seu lado num imenso deserto de areia, cães que encostavam latindo e uma sucessão de cenas confusas. Não importava. Estava agora deitado no chão, enquanto pensamentos vagos rondavam a sua cabeça. Sentia todo o vazio de um momento consigo mesmo, sozinho.
A noite ia indo embora, aos pouco, junto com a lua, e o sol começava a penetrar no quarto, deixando perceber a claridade do dia que chegava. Ao seu lado, via os papéis no chão e a máquina no mesmo lugar. Percebeu que passara a noite acordado. Não fizera nada, somente se lembrara de fatos acontecidos que passaram fragmentados por sua cabeça durante a noite. Levanta-se, procura pelo relógio e verifica as horas. O dia estava começando às seis horas da manhã, mas ele não havia dormido. O tempo que não existia.
Colocou uma camisa no ombro e saiu, como num dia normal. Para ele era anormal sair naquele horário, mas tudo parecia ser normal. O dia que estava começando. Esperou que o elevador chegasse. Pensou em acender um cigarro, já que o elevador não chegava. Ao pegar a carteira, o elevador chegou, mas ele não possuiu forçar o suficiente para voltar atrás e acendeu um cigarro. No elevador, encontrou-se com a namorada de um cara que morava num apartamento de cima. Tinha conhecido os dois assim que chegara no novo prédio, quando passava pelo playground.
- Bom dia.
- Bom dia, respondeu ela, com um ar de quem estava bem à vontade.
O elevador parou no segundo andar. Entrou uma senhora. Fixou o olhar e ele percebeu a sua cara de quem não havia gostado da fumaça do cigarro que ocupava quase todo o espaço do elevador. Encarou para ele com um olhar interrogador:
- O senhor fuma muitos cigarros ao dia?
- Depende, geralmente não fumo muitos. Depende. Por quê?
- Parece já estar bem acostumado a se trancar em ambientes fechados e aproveitar ao máximo essa fumaça fedorenta. Pelo amor de Deus, diz alterando o seu tom de voz, nós estamos num elevador!
Ela abriu a porta e saiu apressada. Ele não disse nada, continuou a fumar, indiferente a tudo, enquanto saía, também, do elevador.
Beatriz sorriu da cena que acabara de presenciar. Durante o tempo todo pensava na insignificância do que vira. Ao sorrir, acenou para ele que sorriu em resposta.
A senhora, que se encontrava no elevador, atravessou a rua e entrou num carro. Ele a observou, sentada dentro do carro. Imaginou uma charrete com dois cavalos, onde a senhora estaria sentada com seus chicotes na mão, batendo forte nos cavalos. "Eia, vamos! Preguiçosos, rápido!" Parou num ponto de ônibus. Enquanto esperava, acendeu outro cigarro. Lembrou-se da senhora, sorriu e começou a fumar, esquecendo do mundo em que havia acabado de penetrar e que estava sempre ao seu redor.
Passado tudo, ele percebeu que o mais importante seria acabar tudo. Partir para outra. Estava vivo, apesar de não estar muito satisfeito com isso. Continuava ali, com sempre. A solução seria levar tudo adiante, começar tudo outra vez.

Juno caminha numa vila próxima às Centrais

Uma vila, perto das Centrais. Eu estava ali, parado, em frente a uma delas. Saí andando pelas ruas. Encontrei pessoas misturadas a um monte de lixo. Elas catavam tudo o que lhes fosse útil. Toda a sujeira das Centrais eram jogadas ali. Eu entrei na vila. Eram casas num estado precário, mal construídas, onde habitavam pessoas que escondiam a sua verdadeira beleza. A vida sobrevivia entre esgotos, o lixo e péssimas condições de moradia. Pensei em ir embora, mas desisti. Precisava andar por ali, pisar na sujeira. Seria preciso limpar tudo aquilo. A solução não seria transportar as pessoas para outros lugares, mas tentar modificar todo o sistema das Centrais. Seria preciso abrir os espaços fechados, onde pessoas aprisionadas viviam sem condições de perceber a realidade em que se encontravam. Seria muito difícil conseguir modificar os interesses daqueles que comandavam as Centrais. As mudanças iriam acontecer aos poucos. Eles não iriam resistir por toda a vida. Iriam morrer e nós permaneceríamos. A partir daí, os limites não mais existiriam.
Prossegui andando. Observei muito bem o que vi. Depois, saí dali. Precisava ir de encontro a Tuna. Era preciso encontrar uma maneira de acabar com toda aquela situação, que só agora eu enxergava de outro ângulo. Não era mais uma surpresa, mas eu já havia conseguido enxergar tudo de um novo ângulo.

Mesa de bar

Era uma noite de lua cheia. Durante muito tempo não se via uma lua assim como essa. Anunciava o verão que estava próximo. O céu estava claro, cheio de estrelas. Tudo parecia estar bem. Num barzinho, perto do mar, ele tomava cerveja com Stella. Ela estava tranqüila e falava coisas sem sentido. Não sabia por que estava ali. Não estava muito acostumada a tomar cerveja. Ficava um pouco tonta. Quando ele a conheceu, sugeriu ir a um barzinho tomar umas cervejas. Ela respondeu: "não sei, posso ficar um pouco tonta". Ele riu, balançou a cabeça e disse: "você já é tonta assim mesmo". Stella não compreendeu muito bem. Naquele momento em que estava sentada na mesa do barzinho, tudo vinha à tona. Misturado entre conversas de outras pessoas que bebiam, à voz dele que falava coisas sem nexo, ao som. Estava interessada no que ele dizia, mas não conseguia parar de pensar e de deixar sair de sua cabeça coisas sem nexo. "não têm nada a ver com o momento", pensava. No meio da confusão, que rondava a sua cabeça, ouviu a voz dele:
- Eu tenho algo para falar com você.
- O que é? Pode dizer.
Ele não sabia por onde começar. Respirou fundo e tentou disfarçar. Agora já tinha se entregado. Tinha que continuar, Stella esperava ansiosa para ouvir o que ele tinha a dizer. Não hesitou e respondeu à Stella que estava quase lhe perguntando novamente o que era:
- Eu estou a fim de você.
Stella começou a rir, colocou a mão no rosto e encostou a cabeça na mesa. Depois, levantou a cabeça, olhou para ele e perguntou:
- É mesmo?
- Claro. Você acha que eu te chamei para sair, vir até aqui, por quê? Eu estava a fim de sair com você.
Stella continuou rindo. Ele olhou para ela e deu-lhe um beijo. Ela correspondeu àquele beijo. Durante algum tempo, duas línguas se encontraram numa busca mútua. Depois se afastaram. Ela encostou num canto, ele em outro. Stella sentiu-se um pouco tonta. Pensou: "deve ter sido a cerveja". Não entendia por que sempre se sentia tonta nessas horas. Ele sorriu: "nunca pensei que fosse tão fácil", diz consigo mesmo. Bebeu o que restava da cerveja, chamou o garçom, pediu a conta e chamou Stella para sair. Esperaram por alguns minutos.
Dois amigos que conversavam animadamente, em pé, sentaram-se, pediram uma cerveja e voltaram a conversar:
- É preciso contestar, gritar, mostrar a verdade, diz um deles.
- Claro, temos que ir à luta para conseguir o que queremos.
O papo continuou. O som misturado às vozes. A lua cheia lá fora, cada vez mais branca, no meio da noite escura, que ficava clara com a sua presença. No meio da fumaça dos cigarros, as pessoas entravam e saíam Um casal chegou, acompanhado por mais duas outras moças que sorriam alto. Sentaram todos numa mesa do canto e pediram uma cerveja e quatro copos. Olharam um para o outro e voltaram a dar risadas.
O garçom trouxe a conta. Ele pagou, levantou-se, abraçou Stella e sorriu. Saíram abraçados.

Escombros

Tuna caminha sobre os escombros das Centrais. A luta pelo poder tinha levado todos os planos pelos ares. As pessoas que habitavam as Centrais são auxiliadas e transferidas para Marádida. Passam a viver num paraíso fértil. Marádida era a terra prometida. Para todos aqueles que viviam presos nas Centrais e não conheciam o mundo lá fora. Uma nova realidade que, para eles, nem existia. A ganância levou as Centrais à destruição. O local onde ficava o comando das Centrais foi o primeiro local a explodir. Depois, formou-se uma situação de catástrofe generalizada. Muitos morreram. Os que conseguiram se salvar estavam agora sendo ajudados e levados à Marádida. As pessoas que já moravam em Marádida foram transferidas para Paraíza, uma nova vila que ficava por perto.
Depois de resolvidos todos os problemas, Tuna vai para Aura, uma outra vila mais distante que estava sendo fundada. Juno já estava lá, esperando por ele. Ao chegar, começa a contar a Juno sobre a situação em que se encontravam todos aqueles que estavam presos nas Centrais. O vento manso de Aura, a brisa mexe os seus cabelos e passa entre seus corpos, como se os acariciasse. E Tuna explica a Juno:
- O mundo é um museu em construção. Somos todos vistos como peças de um museu, onde se encontram objetos e os ossos de todas as espécies que viveram em nosso mundo, em épocas passadas.

Os óculos escuros

A calçada molhada. Ele olhava pela janela, via através do vidro a manhã. Uma manhã cinzenta, dessas em que a chuva já foi embora, deixou apenas a umidade tentando penetrar em nossos ossos. A chuva impediu que ele saísse, mas agora não sabe se deve. Os ensaios em que não somos senão cobaias. No entanto, a movimentação entre diferentes mundos nos permite conhecer a tudo o que experimentamos. O mundo que se movimenta lá fora. A máquina que não pára. O mundo em movimento. Os homens fazendo parte do movimento e movimentando o mundo. Num instante, tudo muda. Uma cena totalmente inesperada começa a acontecer.
Ela chegou no momento exato, como sempre. Desta vez, estava usando óculos escuros. Isso o deixou intrigado. "Ela sempre detestou óculos escuros", pensava ele. Estaria acontecendo alguma coisa estranha. Ele foi até à janela. O céu continuava nublado, um pouco cinza. Amanda estava toda de preto, com um blusão e óculos escuros. "Por que ela não tirava os óculos?", pensava intrigado.
- Você quer ir mesmo ao tal passeio no bosque?
- Claro, no bosque, na praia. Tanto faz.
Ele não conseguia encarar Amanda. Não entendia o porquê dos óculos escuros. "Ela está querendo esconder algo". Ele resolveu explicar que queria ir num parque, lá tinha muitas árvores e ele queria se misturar ao verde. Queria ficar longe de tudo. "Por que esse óculos escuros?"
- Vamos ficar aqui mesmo, disse Amanda. Sugiro ficar por aqui. Não adianta fugir da realidade que nos cerca. Vamos nos impregnar da realidade que se encontra ao nosso lado, até nos sentir totalmente sufocados por ela e aí estaremos mais conscientes, aprendendo com a prática, a experiência. A resposta pode estar aqui mesmo.
Amanda falava sem parar. Nem ela mesmo entendia tudo aquilo. Na verdade, queria andar, explorar a sala, os quartos, a varanda. Ele foi à janela, viu a rua e a vida que se movimentava nela. Amanda entrou na copa e percebeu, através da porta aberta, uma maçã em cima da mesa da cozinha. Ela olhou para a maçã e sentiu-se totalmente atraída por aquela fruta, ali, à sua frente. Dirigiu-se à cozinha, parou em frente à mesa a observar, por alguns instantes, a maçã verde que ali se encontrava. Amanda pegou a maçã entre os dedos e a acariciou, não como se fosse uma simples fruta, mas como se fosse um ser vivo que necessitava de carinho. Pensou em morder a maçã, colocá-la entre os dentes e pronto. Iria sentir o prazer do gosto da maçã em sua língua. Não, não iria morder assim, de vez. Iria demorar um pouco, encostar os dentes, deixar o tempo passar, mas não morderia a maçã naquele instante. Sentia como se a maçã estivesse pedindo, implorando para ser mordida. Ela queria adiar aquele instante, aquela sensação. No fundo, desejaria ouvir a maçã gritando, implorando: "morde, morde agora". Ela divertia-se com isso, com seus pensamentos e toda a sensualidade que parecia tomar conta de todo o seu corpo. E passava a maçã entre os dentes, roçava a língua na pele fina da maçã que se encontrava em suas mãos. Olhava para a maçã como se quisesse perceber as suas sensações naquele momento. Dava risadas e olhava para a maçã e dizia para si mesma: "eu sei que você quer que eu lhe morda agora, mas eu não quero. Eu quero prolongar esse prazer, até que você me implore, me peça para lhe morder, até você não agüentar mais". Divertia-se e sentia prazer em prolongar aquelas sensações. Então, começou a cravar os dentes na maçã, mas não continuou a morder. Parou assim que sentiu que a pele fina que a cobria já havia sido traspassada por seus dentes. Olhou novamente para a maçã e, finalmente, como se estivesse atendendo a um pedido implorado, desejado, mordeu a maçã e tirou um pedaço enorme, mastigando lentamente. Ao terminar de comer o primeiro pedaço, começou a sentir uma sonolência em todo o corpo. A maçã caiu de suas mãos e ela adormeceu com a cabeça encostada na mesa da cozinha.
Ele continuava na janela, indiferente a tudo o que estivesse acontecendo dentro do apartamento. Observava o que acontecia lá fora. Um ônibus havia batido num carro de uma mulher que ia passando distraída. Foram juntando curiosos que ouviram o barulho provocado durante o choque entre os dois carros. A polícia chegou, conferiu os documentos. Todos queriam falar ao mesmo tempo. A mulher parecia nervosa, apesar de não deixar transparecer totalmente o estado em que se encontrava. O motorista do ônibus, pensativo, defendia-se, explicava o que de fato acontecera. Era a mesma senhora que dissera a ele sobre o cigarro, no elevador. Não houve engarrafamento e tudo voltou ao normal rapidamente. As explicações continuaram, junto aos dois carros que continuavam parados no local. O motorista estava próximo ao ônibus, enquanto a mulher mais um senhor de bigodes, provavelmente seu esposo ou algum conhecido que chegara ao local, conversavam com os policiais. Aquela cena o distraíra totalmente. Por alguns instantes, esquecera de Amanda e de tudo o que tinha planejado.
Neste instante, Amanda despertara do estado de sonolência em que se encontrava. Assustada com tudo aquilo que acontecera, voltou à sala, mas não comentou nada com ele. Percebeu que ele está escrevendo algo.
- É um texto que estou escrevendo para um jornal. Tenho que terminar ainda hoje.
- E o seu livro?
- Foi lançado, comentado... E a vida continua. Estou escrevendo um conto.
- Como se chama?
- A Última Grande Obra de Arte do Famoso Pintor. Tenho um rascunho. Você gostaria de dar uma olhada.
- Sim, é claro. O título me deixou curiosa. De que se trata?
- É uma espécie de sátira à situação do artista perante a sociedade. Na verdade, foi inspirada em um famoso pintor. É claro que a história é pura ficção. Eis o rascunho.
Amanda sentou-se na poltrona ao lado e começou a ler. Ele ficou olhando pela janela. Os carros que iam e vinham. A escuridão da manhã cinzenta. A escuridão da cidade. Parecia haver uma luz bem longe clareando aquela manhã cinzenta. Agora ele estava enxergando a luz no final do túnel. Existia uma luz no final do túnel.

Chuvas

A chuva caía forte, sinal de que o inverno este ano será muito frio. A chuva caindo forte, as janelas fechadas, as luzes apagadas, a não ser uma única janela de um ou outro prédio. As pessoas aproveitam a chuva para dormir. É tão gostoso dormir com o barulho da chuva. Do outro lado, de uma das janelas que deixam transparecer uma pequena dose de claridade de luz, junto a tanta escuridão, num pequeno sofá, encontrava-se alguém que passava indiferente, assim como todas as outras pessoas, diante do espetáculo que a chuva proporcionava. E pensava tanto que havia esquecido de abrir a janela e observar a rua molhada, os carros a jogar lama para todos os lados. Sentir a água que caía insistentemente descer do rosto, molhar o cabelo, derreter a máscara de papel amarrada no rosto. A sensação, ao receber em nosso corpo as gotas que caem e inundam o nosso interior, é de que a chuva leva tudo. A chuva leva tudo. Talvez, algo nunca sentido antes. Ocorre um transbordamento do rio que existe em nosso interior. Renova-se toda a água que possuímos. Passamos a ser outro, dentro de nós mesmos. Vai-se embora toda a sujeira, juntamente com a água. Toda a sujeira da rua que, às vezes, entope a boca dos esgotos. E, pensando no que fazer no dia seguinte, no sofá, deitado, acabou dormindo. Dormindo para poder viver. Dormir significava esquecer, fechar os olhos para as grades ao redor. Dormir seria negar a existência de uma prisão. Seria ter um momento de liberdade. Poder dar a volta fora da gaiola. A televisão ligada, transmitindo um desses programas de humor que já não têm mais graça. Numa mesa ao lado, um jornal de notícias que, apesar de não serem as mesmas, são iguais às de sempre.


Cacau Novaes - Autor

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