Final
Com
os dedos nas teclas da máquina de datilografia, terminava seu livro
que há muito tempo começara a escrever. Sim, seria o final, dentro
do seu quarto, as portas fechadas, uma noite fria. Ouvia o barulho
das teclas e de uma televisão que permanecia ligada. Às vezes,
tentava acompanhar o filme, mas seu interesse se limitava ao fato
do filme ser antigo e em preto e branco. Tinha um verdadeiro fascínio
por imagens em preto e branco. Gostava de olhar os objetos, as
pessoas, as cenas através de ângulos diferentes para ver como ficariam
numa fotografia em preto e branco. Parou, deixou os papéis de lado,
acendeu um cigarro e deitou no chão olhando o teto branco. Há algum
tempo, havia pensado em mudar a cor do teto do apartamento onde
morava, pintar de cores diferentes, jogar as tintas de várias cores
no teto e deixar que se espalhassem, causando um efeito visual
bem diversificado. Antes que tivesse colocado a idéia em prática,
desistira. Na verdade, o branco oferecia maiores possibilidades
de se desligar de todas as coisas, além de poder deixar sua imaginação
funcionar, nos momentos em que ficava deitado no chão, olhando
para o teto totalmente branco.
Ele não se preocupava com nada. Sabia que faltava pouco tempo para concluir
o que começara. Olhando para os papéis datilografados que caíam da mesa,
recuperou o ânimo e resolveu voltar à máquina. Recorreu aos rascunhos,
encontrou uma poesia que fizera. Pegou o papel e retornou ao trabalho.
Continuava a escrever com a mesma incerteza de antes. Decidiu terminar,
faltava pouco. Pouco para tudo. Iria fazer algo que adiara. No entanto,
já estava tudo pronto. Só faltava concluir.
Continuou sozinho, sem olhar para o relógio que guardava, pois não queria
continuar escravo do tempo. O tempo foi o único culpado por ainda estar
ali. Com os dedos nas teclas, continuava as últimas páginas de um livro
que nunca pensara em concluir. Sabia que era impossível parar. Agora
que recomeçara, queria ir até o fim. Estava fazendo o que queria, não
adiantaria mais adiar. Não sabia por que terminava o livro, mas sabia
que seu rascunho, seu conto, sua história iria chegar ao fim.
Em sua cabeça apareceram vagos pensamentos sobre as poucas horas que
restavam. "Para que continuar algo que, talvez, nem sairia de suas
gavetas?" Pensou em antecipar aquelas poucas horas. Seria como adiantar
o relógio, os ponteiros. Não faria diferença alguma em relação a outros
relógios: todos estariam com seus tique-taques normais, marcando as horas
num pulso, numa torre de igreja, na cabeceira de uma cama, numa parede
ou em qualquer outro lugar. Um despertador que tocaria sozinho, sem chamar
a atenção do vizinho. Para que dar cordas se tudo já chegava ao fim?
Estava, na verdade, lutando contra aquilo que gostaria de fazer urgentemente.
Não tinha mais nenhum compromisso com o tempo, embora quisesse concluir
o livro para depois ver o que aconteceria. Algo que não sabia se iria
acontecer um dia.
Desviou os olhos da máquina de datilografia e viu que começava um novo
filme na televisão. Já devia ser um pouco tarde. Perdera completamente
a noção de tempo. Agora, estava com o corpo sobre o sofá e se desligara
do texto que tentava escrever. O filme parecia ter desligado sua cabeça
do que fazia anteriormente. Era a história de alguém que chegava perdido
num país desconhecido e fugia de uma guerra que acontecia em seu país
de origem. Uma história de angústia, de encontros e de começo de vida.
O protagonista do filme resolveu desistir e abandonar tudo. Fugiu para
um lugar diferente, distante, mas consciente do que iria acontecer.
Desligou a televisão, acendeu um cigarro, pegou um pouco de café e ficou
pensando no final do livro. Não sabia o que iria fazer. Nem ele mesmo
poderia adiar nada, estava tudo pronto para ser feito. "Era algo
que estava acontecendo naturalmente", pensava. Tudo estava certo
em seu devido lugar. Não iria acontecer nada anormal. A hora havia chegado,
não poderia mudar algo que iria acontecer. Tudo estava programado nos
mínimos detalhes, por isso estava ali naquele momento. Cumpria o que
já estava programado. Já havia adiado durante muito tempo. O limite estava
se esgotando. Terminaria o livro. Sim, seria o final. Não importava como
viria, ele sempre acontece. O final estava sempre previsto.
Depois de fumar o cigarro, resolveu sentar novamente em frente à máquina
e continuar a datilografar os textos. Pegou uma folha de papel e colocou
na máquina. Iria tentar concluir o que iniciara a tanto tempo.
O retorno não existe, eu não consigo imaginá-lo. Sempre estou fazendo
parte da realidade em que vivo. Talvez, não exista uma diferença entre
a realidade em que vivo e outras realidades em que viajo, mas sejam uma
a continuidade da outra. Não me lembro como voltei, lembro-me do outro
mundo visitado. Não me parece existir o retorno e, sem que perceba, estou
de volta ao lugar de origem. O retorno é mais esquecido do que a ida.
A ida é surpreendente, maravilhosa. O retorno é algo tão rápido, tão
passageiro que, durante o período em que acontece, é extremamente monótono.
Difícil é lembrar o retorno. Aconteceu e eu estou aqui.
Percorri, durante a viagem, uma pequena vila onde homens e mulheres já pareciam
bastante cansados. Parecia que trabalhavam horas intermináveis. Seus
rostos demonstravam que levavam uma vida de miséria. As crianças, magras
e subnutridas, corriam ao meu lado. Todas elas me encaravam com se eu
fosse um ser estranho, diferente. Nós que morávamos nas Centrais, não
conhecíamos a verdadeira vida de quem as abandonara.
Desci escadas que pareciam nunca terminar, como se estivessem indo para
o centro da terra, passando entre abrigos para sobrevivência, casas mal
construídas, podendo cair a qualquer instante, marginalidade e um grau
muito baixo de desenvolvimento. A impressão que as pessoas, não acostumadas
com aquela maneira animal e forçada de viver, teriam seria o de ter encontrado
um mundo diferente do seu. A cabeça humana deve ser usada para ir mais
além, produzir, estar num estado de renovações, mutações, percorrendo
todo o espaço em que necessite estar e não encarcerada numa prisão, sem
chances para seguir. O choque aconteceria no instante em que visualizassem
as imagens e, seria muito pior, quando descobrissem a transparência naquelas
cabeças, apesar de ofuscada.
Terminado o percurso, eu havia conhecido a verdade escondida em concretos,
esmagada num interno mundo do subterrâneo. Esconder ainda mais o desconhecido
e, se não houver outro jeito, fugir. Por que esse processo acontece nas
pessoas? Encarei tudo naturalmente. Tive insegurança por estar entrando
no desconhecido, nunca visto, mas soube compreender todo o caminho que
me fora apresentado. Segui sem pensar no acontecido, mas sem forçar o
esquecimento, percorrendo diferentes paisagens, indo de encontro ao imaginário.
E tantos outros mundos surgiram que não consegui me enraizar em nenhum
deles, apesar de conhecer a todos. Segui tentando encontrar a saída no
final do túnel.
Um lugar ao sol
Ele acordara com a idéia de ir à praia. Estava totalmente pálido e precisava
de um pouco do calor do sol. Não quis confirmar as horas no relógio,
mas sabia que a manhã tinha ido embora e já era uma ensolarada tarde
de verão. "Como tentar fazer o não-sei-o-quê da nossa vida diária,
quando não temos ânimo nem para levantar da cama?" Esta noite o
deixou com muito tempo para pensar. Não que tenha sido interminável,
mas um espaço de tempo necessário. Sabia que precisava chegar a uma conclusão:
ir ou não ir à praia. Acordara pensando em ir porque o céu estava com
um azul fortíssimo. Um novo dia. Para ele, não tão novo, mas um dia como
o de ontem, anteontem, como todos os outros dias. Cheios de trabalho,
confusão, sol ou chuva. A única diferença entre os dias: sol ou chuva.
Se chovia, imaginava sair de casa e nos dias de sol fazia um calor sufocante.
Alguém o teria dito um dia: "o calor não é tão forte aqui. Faz muito
calor, mas não é tão forte assim. Afinal estamos num litoral com um imenso
oceano à nossa janela". Um eterno não-sei-o-quê todos os dias, todas
as manhãs. Tentar levantar cedo da cama e depois tentar levantar para
a vida. Duas decisões importantes a serem tomadas: sol ou chuva. Às vezes,
não tinha ânimo para decidir o que fazer. Quando pensava em sair, o sol
já brilhava quente e, depois do seu esforço, percebia que já era tarde
para conseguir ver o sol se pôr. Como levantar da cama, se ele não possuía
forças nem para mexer o dedo? Por que seu corpo não reagia? Não conseguia
levantar-se da cama. Sentia o cheiro de bananas fritando e uma vontade
de comer algumas com um pouco de canela em pó. Estava sonhando ou acordado?
Ele estava acordado e o cheiro de bananas fritando era verdadeiro. "Será sonho
ou realidade?", pensava. "Fritar bananas... Melhor do que ficar
deitado, esperando que o dia passe, que a noite passe, que outro dia
chegue e outra noite, outro dia... Sempre a mesma coisa e a minha vida
derretendo-se numa panela de fritar bananas. E o cheiro continua em meu
nariz. Quem sabe não é em minha cabeça?"
Talvez seja impossível imaginar que, dentre tudo o que existe, algo não
possa ser alcançado. Creio que tudo nos pode ser revelado, apesar de
surgirem barreiras que nos impeçam de ir ao encontro do indeterminado.
Encontrar a revelação é como caminhar numa estrada onde você pode continuar
ou voltar. Depende do desejo de conhecer ou não. Encontrar, numa única
busca, todo o mistério que precisa ser revelado. O certo é que os mistérios, às
vezes, não possuem nada de concreto e só existem ou são mantidos vivos
nas cabeças, na imaginação das pessoas. Um lugar ao sol será sempre uma
maneira de ir mais à frente. Procurar o lugar ao sol e sentir todo o
seu calor. Querer conhecer e escolher. A vontade materializando-se através
do desejo imenso de possuir, único e real, todo o universo não concedido
aos nossos olhos.
Os pensamentos voavam em sua cabeça. Estava deitado, olhando para o teto
totalmente branco. Imagens e reflexões que vinham à sua cabeça e invadiam
o seu pensamento. Resolveu levantar e ir à praia para poder afastar da
sua cabeça toda uma sucessão de fatos e acontecimentos que invadiam a
sua imaginação. Não poderia mais ficar deitado, pois parecia que a sua
cabeça iria estourar e já não agüentava mais ficar parado.
Depois que decidira o que iria fazer, começara a se preparar para ir à praia.
Foi à cozinha e esquentou o café, enquanto tomava um banho. Fez a barba
para ficar com uma aparência mais jovem. Bebeu o café, acendeu um cigarro
e saiu em direção à praia. Resolveu ir andando, queria ver de perto a
agitação da cidade numa tarde de sol. A cidade continuava a mesma: barulhos,
confusões, correria, poluição. Não era aquilo que ele queria. Iria para
uma praia deserta, algum lugar em que houvesse um pouco de tranqüilidade.
Não conseguia caminhar com toda aquela confusão, precisava parar e relaxar
num lugar ao sol. Podia ir de ônibus, a um lugar mais longe da loucura
urbana, e saiu em direção a um que passava do outro lado da pista. Assim
que chegou à praia, pisou na areia e começou a andar. O sol ainda permanecia
no céu azul, mas já estava bastante baixo. Encontrou um caminho em direção
a um rio e resolveu ir ver aonde ia dar. Era um rio que despejava suas águas
ali, naquele mar. Depois de andar por um bom tempo, encontrou crianças
que pulavam de uma pedra alta e caíam contentes nas águas do rio. As
crianças pareciam fazer parte daquele cenário natural, nuas a brincar
na água. Parecia existir uma integração perfeita entre elas e o espaço
que as rodeava. Deitavam na pedra, rolavam na areia e o sol aquecia os
corpos molhados. A água escorria na pedra e voltava para o rio. Uma das
crianças caminhou impaciente procurando algo desconhecido que despertasse
a sua curiosidade. Mergulhou na água, já conhecia todo aquele espaço
e procurava novos movimentos, gerando novas imagens, que observava naturalmente.
Mergulhou na água, indo de encontro às pedras e areias escondidas. Ele
desviou a sua atenção da cena que observava e penetrava em seus próprios
pensamentos: "o desconhecido existe, mas nunca para sempre. É revelado
através do nosso jeito ativo de ser, de buscar, ir de encontro ao que
não conhecemos ainda, fazendo-nos esquecer o existir anterior".
Marádida
Aquela imagem ficou em sua cabeça durante muito tempo. O rio, as crianças
livre e soltas. O homem bastante desligado dos conceitos sociais. Ele
percebia o quanto as coisas mudam quando são observadas de ângulos diferentes.
Todos os conceitos vão por água abaixo.
Sentado no sofá, diante dos papéis espalhados pelo chão, ele pensava
em tudo o que acontecera no dia anterior. Ao voltar da praia, ele tomara
um banho, assistira a alguns filmes na TV e fora dormir, esperando o
novo dia. Misturadas, em sua cabeça, as imagens vistas no filme e o seu
dia na praia, o rio, as crianças. Essas imagens se confundiam e formavam
um caleidoscópio em que se misturavam, gerando imagens diferentes. Ele
levantou-se, acendeu um cigarro, ligou o som, dançou. Depois de algum
tempo, ele sentiu vontade de retornar aos textos. O papel já estava na
máquina de datilografar. Apagou o cigarro, quando ouviu o telefone tocar:
- Alô!
- Quem está falando? É você quem está falando?
- Sim, sou eu.
Uma pausa. Ele não disse nada e a voz, do outro lado da linha, calou-se.
Voltou a falar como se estivesse nervosa.
- Desculpe. Qual o número daí?
- Do telefone?
- Sim.
Ele disse o número de telefone e ela pediu desculpas. Não era para aquele
número que ela queria ligar. Foi engano. Ele disse que agora que ela
tinha o número poderia ligar quando quisesse. Explicou que estava escrevendo
um livro e que seria legal quebrar um pouco a monotonia, conversar com
alguém. Ela disse que precisava desligar e iria ligar novamente, assim
que pudesse ou tivesse vontade. Gostava das coisas que aconteciam naturalmente.
Ele desligou o telefone. Tudo voltava ao normal. Diante da máquina, começou
a escrever, enquanto voltavam ao seu pensamento as imagens do dia anterior:
o rio, as crianças...
Tudo é tão diferente que eu pergunto se não existe nenhuma maneira que
possa permitir a abertura da cúpula que limita os espaços das Centrais.
O Capitão Chefe dos Processos de Preservação da Vida Humana levanta-se
e dá um murro na mesa:
- Impossível! Você quer que as pessoas se espalhem por aí, se desliguem
uma das outras e acabem com um projeto que foi planejado durante anos?
Você pensa que pode mudar as coisas de uma hora para outra? As pessoas
não estão preparadas para isso! Iria estragar tudo: os nossos planos
pesquisados, analisados e estudados durante anos pelos nossos melhores
especialistas.
Ele parecia desconhecer toda a situação que existia além das Centrais.
Saí da sala decepcionado. No fundo, ninguém sabia de nada, ninguém sabia
do que estava acontecendo realmente. Era tudo forjado, as pessoas estavam
sendo manipuladas pelas Centrais.
Encontrei um papel amassado, quando saía da sala, jogado junto à porta.
Parecia que alguém o jogara para que eu o encontrasse. Tentei ler o que
estava escrito, pois as letras estavam um pouco apagadas e mal escritas,
como se tivessem sido escritas às pressas. Consegui ler e entendi o que
tudo aquilo significava:
Encontrarás o imaginário
e a resposta às perguntas
que nunca deixarão de existir
quando o sol brilhar no horizonte
e o ouro for jogado no céu.
Os enigmas estavam surgindo para que eu descobrisse como ultrapassar
todas as barreiras e saísse, definitivamente, daquele mundo fechado em
que eu me encontrava. Quando constatei, pela primeira vez, a miséria
que rodeava as Centrais, pude perceber como as pessoas estavam totalmente
alienadas à maneira de vida imposta por elas e pelo Comando que as dirigia.
Na verdade, uma parte da população, depois da construção das Centrais,
ficara morando fora, em lugares próximos e em total miséria. Ninguém
poderia viver bem fora das Centrais, sem estar sob as orientações do
Comando, obedecendo a leis rígidas e num estado de ignorância em relação
ao que acontecia além delas. Em troca estavam seguros e podiam viver
tranqüilos.
Existiam outros lugares, além das Centrais, onde começavam a surgir comunidades
que estavam livres dos sistemas de vigilância das Centrais. Esse grupos
de pessoas tinham evoluído o suficiente para conseguir criar um novo
esquema de vida, com atividades diferentes e novas alternativas. Um desses
lugares, que eu descobrira numa tentativa frustrada de fuga, chamava-se
Marádida. Consegui voltar lá, várias outras vezes, mas ainda não o conhecia
por completo. Marádida era um lugar diferente. Talvez, seja para lá que
eu tenha que ir. A resposta deve estar em Marádida. Lá o sol, no entardecer,
parece com o ouro jogado no céu, derramando-se sobre a terra. A viagem
para Marádida aparecia como um enigma que eu precisaria decifrar. Não
conseguia imaginar o que me esperava. A imagem de Marádida, sempre presente,
me fazia esquecer de tudo e querer somente buscar uma resposta que me
fizesse avançar em direção a outros mundos diferentes.
Antes de sair, do espaço controlado pelas Centrais, encontrei os dois
guardas que estavam me vigiando há muito tempo. Não havia como fugir
naquele momento. Eles estavam me vigiando porque suspeitavam que eu estivesse
recebendo informações de fora. Eu não podia ficar solto, pois representava
perigo para eles. Não podia tentar sair das Centrais sem a autorização
do Comando. Isso significava que estava acontecendo algum movimento escondido,
organizado para desarticular o comando e a organização das Centrais.
Fiquei, durante muito tempo, numa prisão subterrânea. Não havia como
fugir daquele lugar em que me encontrava. Só havia uma porta que ligava
a prisão ao Conselho das Centrais. Estava só, eu era o único que estava
preso. Era o único ali e me sentia como se eu estivesse isolado para
sempre de todo o mundo que se encontrava fora da prisão.
O silêncio me fazia ocupar cada novo espaço de minha nova morada. Descobri
como o espaço é importante. É preciso perceber que o espaço está sobrando,
nós é que não o ocupamos. Pensei em poder ocupar todo o espaço ao meu
lado. Ocupando cada canto, preenchendo cada buraco existente, por mínimos
que fossem: entre o chão e a parede, entre a parede e o teto. O silêncio é a única
coisa escutada. Nem alegre, nem triste, mas vazio, reflexivo. Permaneci
na prisão subterrânea e estava sendo esmagado pelo silêncio.
Marádida veio à minha cabeça e com ela toda a sensação de liberdade.
O céu dourado, o mar azul e selvagem, as areias intocadas, as pedras
protegendo a ilha. Sinto saudades e, por isso, estou totalmente distante
daqui. Se sentissem, mas eles não sentem, executam ordens. É o lado mecânico
do homem sendo posto para fora, como um vômito. O paraíso de Marádida
me vem à mente e com ela o desejo de sair, ir mais além. As paredes fazem-me
ficar doente. Os homens escondem-se no subterrâneo de seu próprio ser
e começam a criar seus próprios mundos, exclusivos. Derretem o ferro
e preparam as grades de suas próprias prisões. Marádida, fantasia do
irreal que se concretiza por instantes e depois só permanece em nossas
mentes. E outros instantes surgirão, mas nunca o mesmo. O repetitivo,
na verdade, nunca acontece.
Pássaros longe, cantando. Imagino um vôo sob um céu azul. Tudo tão pequeno
lá em baixo, e visto de uma só vez. O todo imaginado tornando-se real.
Sinto somente o vento frio que bate em meu rosto. O céu azul e uma direção
indeterminada fazem-me seguir pelo prazer de sentir o vento batendo em
meu rosto. Desço, junto a uma pedra, e fico observando atento toda a
liberdade do mar. Começa a chover e aproveito para deixar a água lavar
o meu rosto, a minha cabeça. E ando na areia, corro atrás da água, indo
e vindo com as ondas. Deito na areia e durmo. Esqueço de tudo, começo
a misturar realidade com sonho. O sol dourado entrando no mar. Acordo
e percebo que alguém toca no meu ombro:
- Siga-me. Não tenho ordens para dizer mais nada.
A maneira fria e autoritária deixou-me com perguntas e interrogações
vagando no espaço. Não pude perguntar nada. Não conseguia me conformar,
mas não podia falar nada. Apenas, obedeci cegamente e o acompanhei. Qualquer
lugar seria melhor do que ficar ali, isolado de tudo e de todos. Saía
da prisão subterrânea. Todo o momento imaginado da liberdade estava se
concretizando. Não sabia para onde me levavam. Eu estava voltando, saindo
da prisão. Talvez, eles me levassem de volta às Centrais. De qualquer
maneira, seria difícil sair novamente. Devem existir outras saídas e
eu tenho que descobrir uma maneira de tentar chegar a Marádida. Tentarei
tudo novamente, mesmo sabendo das dificuldades que enfrentarei.
Incrível não preencherem todo o espaço existente aqui. Se todo o espaço
daqui pudesse tornar-se útil, aproveitável. A artificialidade iludindo
a todos e fazendo-nos enxergar somente o belo. Encontro-me novamente
no portão de chegada e enfrento o retorno. Daqui, posso ver como tudo é tão
feio e triste. A deterioração deixada à vista e não enxergada por todos,
alienados em suas rotinas normais. A artificialidade presente e aflorando
naturalmente.
Enquanto observava atento e sentia toda a nova situação em que me encontrava,
meu corpo seguia andando em direção à vila que pertencia às Centrais.
Uma vila pequena e fechada, onde só havia uma saída, um único caminho
que levava ao Comando das Centrais. Na Central 1, ficavam os comandos
e todos os sistemas de organizações das Centrais e, ligadas a ela, diretamente,
pequenas vilas satélites, onde moravam todos os habitantes comuns. A única
saída que dava acesso a um túnel, onde se alcançava o lado de fora, encontrava-se
ali. A Central 1 possuía a única saída oficial das Centrais. Existiam
vários outros complexos ligados a ela. Entre eles, só havia deserto:
interligavam-se através de túneis subterrâneos. Para conseguir sair,
usando a saída existente na Central 1, seria preciso pedir uma autorização
ao Comando das Centrais. A existência do túnel era negada e causava medo.
Aqueles que saíssem ou pretendessem sair, através dele, seriam condenados à vigilância
do Comando, o que impedia uma nova tentativa. Ninguém conseguia sair
das Centrais. O espaço era totalmente vigiado. Era proibido sair através
do túnel que nos levava ao exterior das Centrais. No entanto, era difícil
conseguir sair ou tentar sair sem ser notado. A cada nova descoberta,
tinha-se a certeza de que havia muita coisa além do que havíamos conquistado.
Subterrâneo Ele chegara na hora marcada. Sempre fora pontual e, desta vez, não decepcionara.
Estava tudo combinado, conforme os planos que tinham feito. Iria sair
com Iara. Ela era uma antiga colega de escola. Fazia muito tempo que
não se encontravam. Ele havia aceitado o seu convite para "sair
por aí". Pensava como seria maravilhoso aqueles momentos em que
passariam juntos, sozinhos. "Quero mesmo é virar a noite",
dissera Iara ao telefone. Ele não entendera muito bem, pois quando a
conhecera, gostaria que fosse como ela estava sendo naquele momento: à vontade.
Olhava para o relógio, certificando-se de que não estava atrasado. "As
pessoas mudam a partir do momento em que começamos a nos tornar mais íntimos",
pensava. Achava engraçado todos esses pensamentos que lhe vinham à mente.
Não deu muita importância e tratou de esquecê-los. Olhou novamente para
o relógio. Tudo bem, chegara na hora marcada. Abriu a porta do elevador
e tocou a campainha.
Iara abriu a porta. Estava bonita, mas não deixava esconder o seu nervosismo.
Ele perguntou o que era, se estava sentindo alguma coisa e ela preferiu
fingir que não ouvira, disfarçando muito bem, como sempre soubera fazer.
Ele mudou de assunto, para não deixá-la desconsertada:
- Onde iremos mesmo?
- Estava pensando em ir jantar num restaurante de um clube aqui perto.
Costumo ir lá. E você, sugere algo?
- Tudo bem. O mais importante é a sua presença, não o local.
- Então, vamos.
Eles chegam ao restaurante. Conversam sobre a época em que eram colegas
de escola. Ela conta que, na verdade, sempre fora apaixonada por ele,
apesar de namorar outro. Retornavam ao passado, à vida de estudantes.
- Lembra-se quando eu joguei aquela revista para o alto? Eu queria lhe
dizer algo e não conseguia. Foi emocionante.
- Isso também nunca saiu da minha cabeça. Foi num intervalo de aula daquele
professor chato. Discutíamos a liberdade, a vontade de fazer o que se
quer. Você empolgou-se com o papo, pegou a revista que estava em minha
mão e jogou para o alto, com bastante força. Como estava ventando forte,
a revista ficou aberta, flutuando no ar, subindo e descendo sob aquele
céu azul.
- Você ainda não casou?
- Não encontrei a pessoa certa.
A resposta dele toca Iara profundamente. "Ela seria a pessoa, depois
de tanto tempo e oportunidades jogadas fora, certa para ele?"
- Talvez, a pessoa certa seja você.
- Não, eu não sou a pessoa certa para você. Todo escritor necessita de
alguém que o ajude a datilografar os seus textos. Eu não sei datilografar.
- Nesse caso, eu estaria precisando de uma secretária e seria muito fácil
encontrar alguma. É só colocar um anúncio no jornal, aparecem aos montes.
Com essa crise...
- Não vamos falar de crise agora. Esqueçamos por alguns instantes que
ela existe. Em todo caso, você precisaria juntar o útil ao agradável.
Uma amante-secretária ou uma secretária-amante.
- Seria muito fácil se fosse só isso.
Ela começa a rir, depois muda totalmente a expressão do seu rosto e o
encara com um ar sério:
- Eu chamei você para jantar comigo porque viajo amanhã para o Japão.
Você seria a única pessoa que eu não poderia deixar de me despedir.
Ao ouvir o que ela diz, ele sente uma vertigem, como se tudo estivesse
muito abafado.
- Um instante, preciso respirar.
Ele avançou em direção às grades que rodeavam o restaurante do clube.
Lá embaixo, o mar e, ao fundo, navios que estavam ancorados ali perto.
Ele precisava ver o mar, necessitava respirar aquele ar que vinha lá de
baixo. Chegando junto às grades, sentiu novamente uma vertigem, como
se seu corpo fosse cair. Quando deixara Iara sozinha era porque estava
tudo acabado, mal havia começado. Não poderia ficar ali ouvindo o que
ela falava. O clube estava cheio e ele estava cheio das pessoas que estavam
ali. Aquele jantar parecia que não ia acabar nunca. Ele queria cair naquela água
escura lá embaixo. Queria estar envolvido por todo aquele mar que se
encontrava lá embaixo. Queria estar envolvido por todo aquele mar que
se encontrava em sua frente.
Ela aproxima-se, de repente:
- Você está se sentindo bem? Acho melhor sairmos daqui, não?
- Vamos ao meu apartamento.
- É melhor do que ficar a ver navios.
Eles chegam ao apartamento dele.
- Veja quantos papéis.
Pega os papéis, joga para o alto, espalhando-os pela sala.
- Não fique nervoso. Vamos aproveitar esses poucos momentos que ainda
nos restam.
Ela aproxima-se dele e dá-lhe um beijo. Ele corresponde àquele beijo,
envolvendo-se totalmente
Passa-se a noite. Inicia-se um novo dia, onde impera o sol forte e o
desejo de curti-lo. O sol quente e as praias, não tão belas quanto antes,
mudam o visual das pessoas que, bronzeadas, tornam-se mais bonitas. Esquecer
de tudo e passar o dia sob o sol, sem compromissos com qualquer coisa
séria. O forte calor tropical deixa as pessoas à vontade, lentas, sem ânimo
para produzir algo, mas a fim de entrar no mar, tirar a roupa...
O sol começa a penetrar totalmente o quarto. Ela levanta-se e diz que
vai preparar o café. Ele desce até a banca da esquina e compra o jornal.
Passam alguns instantes calados. Ele vai até a janela e observa as favelas
do outro lado da rua. Como elas crescem pela cidade. A cidade é uma ilha
rodeada de favelas por todos os lados. Ele apenas observa calado. Iara
pega o jornal, como se imaginasse o pensamento dele e começa a ler em
voz alta:
Reflexos de uma crise urbana Iludidos por melhores condições de sobrevivência, a população rural busca,
na capital, emprego e moradia, pensando poder encontrá-los com maior
facilidade do que em suas regiões de origem. De fato, o campo deixa muito
a desejar: faltam desde condições para investimento na casa própria,
até uma assistência médico-hospitalar, completamente ausente. Os atrativos
da cidade grande são tentadores. Sem outra saída, o trabalhador rural
busca os centros urbanos, num desejo de construir o que sempre sonhara,
ou mesmo numa tentativa de mudanças que lhe proporcionem sobreviver para
depois voltar ao local de onde saíra.
No entanto, ao chegar, depara-se com uma situação totalmente contrária à imaginada.
Os índices de desemprego crescem assustadoramente, aumentando a marginalização.
O homem rural, desempregado, busca o subemprego e, devido à instabilidade
deste, procura na violência e no crime uma forma de superar as suas necessidades.
Desempregado, vivendo num local onde a habitação é, também, um dos problemas
a resolver, o homem do campo procura abrigo debaixo de viadutos, pontes,
em construções abandonadas ou favelas que se proliferam a todo instante.
Toda essa situação só vem a agravar uma crise urbana já existente. Sem
emprego, sem condições de moradia, com sua saúde abalada, além de outros
graves problemas, o homem rural busca a marginalização e, quando não
o faz, ela vem até ele. A crise por que passa a cidade grande é um círculo
vicioso incapaz de ser solucionado, enquanto não se resolver o problema
da população rural.
- Não sabia que você ainda estava colaborando com este jornal.
- Sim, escrevo uma vez por semana.
Iara põe o jornal sobre a mesa e vai para a janela ficar junto dele.
- A situação está piorando em nosso país.
- Pois é, e ninguém se toca. Dá para entender?
- Claro que dá. Morando num país como o nosso. As pessoas daqui são analfabetas,
a maior parte da população. A maioria dos trabalhadores são verdadeiros
escravos. Só uma minoria se dá bem.
Eles tomaram o café juntos, enquanto liam o jornal. Iara levantou-se:
- Tenho que ir. Tenho um dia agitado pela frente. Irei viajar hoje no
vôo da meia-noite. Eu ligarei antes de ir para o aeroporto.
Ele continuou lendo o jornal.
Deitado no sofá, ficou observando o teto branco. Acendeu um cigarro,
pensando em tudo o que acontecera. Iara iria embora para o Japão, trabalhar
com moda. Era o que ele sempre quis fazer e não poderia jogar fora essa
oportunidade. No entanto, sua vida continuava, tinha que terminar o livro,
chegar ao final, concluir. Levantou-se, pegou alguns papéis espalhados
pela sala e resolveu continuar a escrever.
Juno precisava voltar, tentar encontrar uma saída que o levasse a Marádida.
Queria voltar àquele caminho descoberto. Novas trilhas precisavam ser
construídas. Não poderia continuar ali nas Centrais. Observava as folhas
amareladas pelo tempo, levadas pelo vento. A estagnação não pode existir,
não podemos nos tornar prisioneiros acomodados. Às vezes, nós construímos
a nossa cadeia e nos sentimos felizes com isso. Pássaros na gaiola com
um canto diferente de liberdade.
Ficou, durante algum tempo, no Complexo das Centrais. Depois começou
a percorrer todos os espaços que já conhecia, para verificar as mudanças
acontecidas. Tinha cuidado, não queria ser vigiado. Temia que isso estivesse
acontecendo. Começou a sair por lugares diferentes, distantes e afastados.
Observou todos os comportamentos das pessoas que moravam nas Centrais.
Seria possível que as pessoas não pensassem como ele?
Começou a ter em mente a idéia de percorrer tudo novamente, indo de encontro à saída,
sem medo. Não demorou muito e Juno voltou à estrada, junto às grutas.
Desceu para recomeçar a viagem. Seria aquela hora, não poderia mais continuar
adiando. Tinha que ser rápido, não poderia pensar muito.
Chegou perto das grutas e desceu até uma que ficava perto da saída para
o subterrâneo que o levaria ao final do túnel. Lá encontrava-se Cristal,
um velho de corpo e espírito novos. Era difícil conhecer pessoas parecidas
com ele. Cipós fechavam a entrada de sua gruta, um caminho nunca encontrado
por alguém que não o conhecesse. Quase no final, havia uma passagem para
um lugar onde a paz parecia se materializar. Diferente de todos os outros
mundos. Havia uma fonte, perto de um lugar onde se podia deitar, descansar
ouvindo o barulho da água que caía. Observar o riacho, abaixo da fonte
e sair andando na água cristalina, límpida. Seguir até o fim e deixar-se
guiar pelos olhos. Tirar a roupa, tomar um banho na fonte, sentir-se
outro e contemplar-se numa união ao espaço ali existente.
Juno passou várias noites ali, tentando encontrar uma saída que o levasse
ao túnel. Poucos chegaram ao seu final. Os que conseguiram sair, deixando
um ar de mistério, não voltaram mais. Seria algo a ser desvendado: o
desconhecido seria sempre inatingível?
Cristal meditava em sua gruta e parecia não perceber a presença de Juno.
Não precisariam existir palavras, sabia enxergar os pensamentos. Juno
ouvia, a sua voz parecia vir de um outro mundo, não dali onde estava.
Uma voz estremecida, que lhe chegava através de transmissões telepáticas.
Na verdade, Cristal não morava ali. Apenas passava algum tempo, o necessário
para descansar, manter a transparência de seus pensamentos. Nos únicos
contatos, nos momentos em que a sua imagem podia ser visualizada, comentava
a respeito de suas viagens, suas experiências em outros mundos diferentes.
Juno escutava o que ele dizia:
- Tentar conhecer novos espaços é algo muito perigoso para quem ainda
está sob o controle das Centrais. Pode-se até andar no mar por uns instantes,
mas depois afundar. Aprofundar-se nos objetivos, mesmo sendo muitos,
diferentes, surgindo a todo instante. Observar sem que seja preciso estacionar.
Admirar, de um topo bem alto, todo o vale, entre as montanhas, até onde
a nossa visão normal atinja. Explorar todo o espaço existente. Encontrarás
a resposta em Marádida, quando o sol se pôr, bem devagar, atrás das montanhas.
A resposta está em Marádida.
Permaneceu calado, meditando. Eram curtas e enigmáticas as coisas que
ele tinha a dizer. A sua voz deixava no ar uma sensação de paz e tranqüilidade.
Depois de alguns instantes, ele desapareceu como se um estado de êxtase
tivesse invadido o seu corpo.
Juno sabia que precisava continuar, não poderia desistir. Desceu ainda
mais ao subterrâneo. Estava num local proibido. Poderiam descobrir e
levá-lo de volta às Centrais. Ele saiu da gruta e caminhou procurando
algo que o ajudasse a descobrir novos caminhos. Viu, bem distante, um
local mal iluminado, uma luz fraca, como se tivesse sido abandonado temporariamente.
Seria aquela a oportunidade para ele descobrir alguma coisa. Chegou ao
local. Junto à porta de entrada, uma placa: MATERIAL PARA PESQUISA E
ESTUDO DA HISTÓRIA. A história havia estacionado ali. Estava tudo guardado,
o passado não mais existia fora dali. Começou a mexer nos arquivos e
encontrou relatórios abandonados, fotografias antigas, recortes de jornais.
Parou por alguns instantes, pois sentira a presença de alguém que se
aproximava. Passos, vindos de longe, aproximam-se devagar. O barulho
foi aumentando, a cada passo. A porta abriu-se lentamente.
Juno escondeu-se atrás dos arquivos, mas saiu imediatamente ao reconhecer
Tuna, que acabara de entrar. Aproximou-se dele:
- Tuna, como as coisas ficam gastas com a passagem do tempo. Tudo isso
guardado aqui, jogado à toa, esperando que o tempo se encarregue da sua
destruição total, apagando todo o passado da nossa memória.
- Juno, as suas reflexões são fortes demais. Cuidado para não ser visto
em locais como este. Eu estive lhe procurando.
- Onde você esteve?
- Eu não posso explicar agora. É melhor não ficarmos aqui.
Tuna dirige-se à porta.
- Preciso me encontrar com você em outro lugar.
Ele sai correndo. Juno grita, indo ao seu encontro:
- Por que não aqui?
O grito ecoa no ar e Tuna desaparece com ele. O proibido ainda existia.
Restavam migalhas de violência no espaço. Agora, esperar. Quem sabe,
o encontro seria realizado e as descobertas seriam reveladas? Juno lembra-se
do papel amassado, que encontrara com algo que julgava ser uma mensagem,
um enigma que o havia levado a querer sair pelo túnel em busca de Marádida.
A resposta estava em Marádida e ele sabia que teria que ir até lá.
Teia de aranha
Deitado no sofá, ele viu uma aranha e começou a observar seus movimentos.
Ela atravessou uma linha quase inexistente e, equilibrando-se com suas
pernas finas, começou a tecer o seu mundo. Fez uma linha de um determinado
tamanho e, caminhando para outra linha, foi unindo uma à outra, num trabalho
que parecia não existir fim. Depois de unir alguns fios, formando o início
da teia, ela atravessou o mesmo fio que usara para chegar até ali. E
atravessou a linha fina como um equilibrista entre prédios imensos. Num
instante de suspense, a aranha desequilibrou-se e caiu. Fugiu do lugar
iluminado pelo sol. Segurou-se num pedaço do fio que estava preso na
outra extremidade. Subiu rápido e retornou à travessia. Chegou do outro
lado, junto ao teto.
Ele continuou deitado. Deixou que os pensamentos continuassem vagando
por sua cabeça. Ficou olhando para a aranha, na sua tentativa desesperada
de construir suas teias. Jogado no sofá, olhando para o teto, as almofadas
e alguns papéis espalhados pelo chão, os móveis sujos de poeira, a janela
aberta deixando entrar o sol.
A aranha esticou e reforçou melhor todo o fio que servia de ligação às
duas teias. Aumentou a linha e seguiu até o outro canto da parede. A
linha quebrou-se e a aranha voltou para a outra teia, ao lado da janela.
No caminho, desequilibrou-se, mas continuou a andar. O sol forte foi
derretendo a sua teia e, quando ela chegou, os fios estavam fracos. A
aranha caiu e desapareceu.
Trinta minutos depois do acontecido, o telefone tocou. Ele não sentiu
vontade de levantar-se para atender. Em direção ao telefone, moveu-se
um ponto solto no ar. Aproximou-se do telefone, uma aranha em seu fio
que nunca a abandona. Ao sentir que alguém se aproximava, ela voltou
rápido e desapareceu. Mais uma vez, seus planos foram desfeitos.
O telefone parou de tocar e ele continuou deitado no sofá, pensando no
livro que precisava terminar.
Mapa da mina
Juno ouve uma voz, vinda de longe tentando lhe dizer algo. Não consegue
entender aquela voz que parecia vir de algum lugar distante dali onde
se encontrava. Começa a andar como se conhecesse tudo ao seu lado. Percorre
tudo o que encontra, caminha em direção à saída e procura por todos os
lados. Pisa numa pedra escorregadia, desequilibra-se e cai.
- Cuidado!
- Quem é?
Ouve o eco de sua voz perder-se no espaço. Levanta-se e continua a andar,
consegue equilibrar-se melhor. Pára e senta-se para sentir melhor o espaço
em que se encontrava: "Dentro do túnel, novamente a procura da saída.
Acho que conseguirei ficar aqui por um bom tempo, pelo menos enquanto
eu resisti às forças que me chamam de volta. Estou me concentrando melhor,
acho que agora conseguirei me concentrar melhor." Ouve passos, alguém
estava vindo em sua direção, mas não conseguia identificar quem era.
Estava vestido com uma capa preta que cobria todo o seu corpo. Na cabeça
possuía um capuz que só deixava ver o seu rosto. Não conseguia ver direito,
pois ele saía de um lugar escuro à sua frente. Juno levanta-se e caminha
em direção à figura humana que se aproxima.
- Não é preciso se identificar, já lhe conhecemos. Aqui forma-se o ele
perfeito que liga todas as forças, todas as coisas. A energia é uma, única
e só. É preciso, somente, que o espaço vazio seja preenchido. Que todo
o espaço existente seja ocupado para que apareçam novos.
Juno esperou que ele se aproximasse. Tirou o capuz, assim que chegou
onde Juno estava. Tinha um rosto bonito e sereno, os seus olhos brilhavam.
Ele olhou Juno e pediu que o seguisse: - Tuna espera por você. Ele pediu
que viesse levar você até lá. É um lugar seguro e você precisa ser preparado
para iniciar, ainda hoje, sua viagem a Paraíza. Chegaremos lá antes do
entardecer.
Juno não perguntou mais nada e o seguiu. Antes de saírem, ele ofereceu
a Juno uma capa igual à sua. Depois, penetraram na escuridão do túnel.
Caminharam, durante algum tempo, na escuridão do túnel. A luz começa
a aparecer aos poucos. Juno consegue enxergar Tuna, que vem ao seu encontro.
- Juno, todos os caminhos percorridos por você serviram, também, para
que nós chegássemos em Paraíza, em Marádida e, mais tarde, em Aura. Você precisa,
somente, continuar em direção à luz que existe no final do túnel. É lá que
iremos encontrar a verdadeira saída. É necessário ir de encontro ao mistério
e tentar desvendá-lo. O mistério sempre existirá, enquanto existir o
desconhecido. Quando o inatingível é alcançado, conhece-se tudo. Se desistimos,
teremos o mesmo destino de muitos que não conseguiram encontrar a verdadeira
saída. Você ainda precisa conhecer outros lugares e o primeiro deles
será Paraíza. Nós nos encontraremos lá. Só vim até aqui para encontrar
você. Sei que é perigoso estar por aqui, mas precisava lhe orientar sobre
a sua viagem. Você não pode mais adiar, pois o sol, dentro de alguns
dias, não vai mais iluminar a maior parte do túnel. É preciso ter cuidado
para que consigamos atingir o nosso objetivo.
Assim que termina de falar, Tuna desaparece. Juno vê um papel com um
mapa ao seu lado. Pega o mapa e segue em direção à Paraíza.
Juno caminha na escuridão, tropeça, desequilibra-se, não vê mais nada.
Só o final do túnel que o liga ao outro mundo que o arrasta, que o atrai.
Sente uma vertigem, seu corpo parece cair num imenso abismo. Não vê mais
nada, somente pensa em tudo o que aconteceu. São imagens que se confundem
em sua cabeça: "uma bola de papel jogada ao canto da parede. Um
pedaço de papel amassado e enrolado como se fosse uma bola. Dentro possuía
um simples rascunho, algo incompleto. As mãos que amassaram aquele papel,
daquela maneira, poderiam estar nervosas, com pressa ou sentindo alguma
coisa difícil de explicar. Deveria ter um motivo pelo qual ele fora jogado
num canto qualquer. Talvez, alguém o tivesse jogado por brincadeira,
simples divertimento. Possuía a cor característica de algo abandonado:
o branco encardido. A simples aparência, no entanto, poderia ser um engano.
Os aspectos superficiais não poderiam distinguir o verdadeiro motivo
de seu destino, ali no canto. O certo é que possuía a simplicidade e
a humildade de alguém que se cala diante dos próprios sentimentos. Ficou
ali calada, sem poder gritar, protestar. Se todos pudessem reivindicar
os seus direitos... Talvez, seria melhor viver onde estava e acostumar-se à simples
condição de bola de papel jogada no canto. Algum curioso, abrindo-a,
poderia encontrar o mapa da mina".
Entre Paraíza e Marádida há uma cidade desconhecida, há uma luz ao longe,
um ponto aceso em meio à escuridão total. Uma luz branca que transforma-se
em amarela, em laranja e vermelha. E permanece assim durante toda a noite.
Esse lugar chama-se Aura. Um dia, todos eles iriam se encontrar lá.
|